sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Artista Conquistense é selecionado para 53º Salão Internacional de humor

O artista Conquistense JoJu foi selecionado com duas obras para o 53º Salão Internacional de humor, na cidade de Piracicaba-SP. Nesta edição o Salão teve 2.445 obras inscritas de 375 artistas de 44 países. Joju teve duas obras entre as 385 selecionadas para a exposição principal.

Cartunista e Ilustrador JoJu
JoJu é o pseudônimo artístico de João Julio, um cartunista, chargista e ilustrador independente de Vitória da Conquista, Bahia. Ele já fez capas e ilustrações para livros e CDs.
Afastando-se da estética comercial e do desenho técnico tradicional, o trabalho de Joju aposta no desenho tosco como linguagem de protesto e contracultura. Através da sua página (@jojucartoon), o artista produz charges, fanzines e tiras independentes que misturam crítica política e reflexões filosóficas.

Uma das Obras de JoJu selecionadas em Piracicaba-SP. Foto: Rena Lacerda

Conversei rapidamente com Joju sobre sua trajetória. Siga logo abaixo.

De onde veio o interesse pela arte? Onde tudo começou?
JoJu-Acredito que assistindo desenho animado. Gostava de ver o Pernalonga, Coyote, Papa-léguas e muito desenho Disney. Também, como assistia muito pela manhã, fazia falta nos outros horários, mas meus irmãos mais velhos, na época, tinham gibis da Mônica e Disney, então era meio que uma extensão do que eu gostava de ver. Isso com uns 5 ou 6 anos. Eu nem sabia ler na época, mas gostava muito de ficar olhando os desenhos e meio que imaginava o que diziam os balões.

Eu sempre fico curioso sobre esse despertar artístico das pessoas, dos músicos e artistas em geral. Com você, de onde veio a vontade, esse despertar de começar a desenhar e fazer esculturas?
JoJu-Foi logo em seguida,quando comecei a estudar. Eu rabiscava o caderno todo com um monte de desenho bisonho. Tomei um esporro da professora na 1ª série, porque eu não conseguia achar uma tarefa de casa no meio de tanto rabisco...hahaha...as esculturas foram um pouco mais tarde, vendo algumas action figures em revistas, ficava morrendo de vontade de ter uns bonecos, Marvel ou DC mas as dificuldades financeiras da época pesavam muito.
Só depois que consegui meu primeiro emprego que eu comprei uma action figure, pirata até, era uma do Joey Ramone, que eu presenteei uma amiga anos depois. Só que uma hora me deu um estalo e fiz um busto de um Batman de durepoxi...hahaha...ficou bem feio, até um tempo atrás eu ainda tinha.

Vídeo das obras de JoJu no 53º Salão Internacional de Humor. Imagens: Rena Lacerda

Como você recebeu a notícia de que tinha sido selecionado para o Salão de Humor? Você já tinha participado outras vezes?
JoJu-Bom, eu tinha participado de um Salão de humor do Piauí em 2020, por indicação de um amigo chamado Samuel Sousa, que também é cartunista. Ele me falou desse Salão e como podia mandar online, aí não pensei duas vezes. Esbocei umas coisas e pedi a opinião de uma amiga chamada Elis, que me disse; "Ah não, isso tá horrível, nem parece coisa sua!" Então fiz uma charge com outra ideia e mandei. Depois chegou uma mensagem no e-mail com os selecionados, do Brasil e do mundo, e aí eu estava no meio. Foi bem louco porque sempre achei meu trabalho muito tosco e não sabia se conseguia transmitir as idéias, então a seleção me provou que eu estava errado. Participei outra vez em 2023 e também fui selecionado, foi bem legal. Esse salão do Piauí entrou em pausa desde então.
Mas no início desse ano vi uma publicação do Salão de Piracicaba. Eu sabia que ele existia, mas sempre achei que era bem alto padrão, por conta das lendas que participaram de lá antes. Pô, existe desde 1974, a Laerte ganhou esse primeiro, então imagina só a responsa. Só que eu já estava com uma página postando direto no Instagram, vi que tem muita gente que gosta, então tentei mais uma vez. Mas também não queria mandar qualquer coisa, então selecionei umas 5 charges que eu achava potente e mandei.
A escultura foi uma evolução de uma ideia de charge que eu tinha feito. Dois homens num futuro apocalíptico, brigando por feijões enlatados, então evolui a ideia pra coisas duradouras de nosso tempo, que só incluem veneno na composição. Mantive a ideia, dos dois homens em guerra num planeta devastado, um com um pau e outro com uma pedra, guerreando por um McLanche feliz, sinalizando uma catástrofe capitalista, e uma baratinha que como dizem, poderia resistir a um holocausto nuclear saudando o público com a famosa frase de Einstein, que disse que não sabia como seria a terceira guerra mundial, mas sabia como seria a quarta; "paus e pedras". Genial e assustador!
Quando saiu o resultado eu fiquei bem empolgado ter duas obras selecionadas num dos maiores Salões de humor do mundo, pra mim foi tipo ganhar um Oscar!

É, eu imagino, já que esse é um dos mais tradicionais e concorridos Salões de Humor, ou eu estou enganado?
JoJu-Sim, praticamente todos os artistas nacionais, gênios do Cartum passaram por lá, como Angeli, Laerte, Adão, Glauco, a Chiquinha (Fabiane Langona), é tanta gente nesses mais de 50 anos que nem da pra listar aqui, fora que participa gente do mundo todo, Irã,  Alemanha, EUA, Itália.
O negócio é Mundial!

Ter uma obra selecionada dá uma visibilidade legal, né? E você teve duas obras, de formatos diferentes, uma escultura e um cartum?
JoJu-Sim, e ainda mais com uma exposição física mesmo, lá em Piracicaba, que sai da bolha onde publico atualmente, que é o Instagram. Fora que tem também o Salãozinho de humor para crianças de até 12 anos, ou seja, é um bom incentivo desde cedo, e a exposição começou no final de Agosto e vai até o início de Novembro.

Cartum de JoJu exposto no Salão Internacional. Foto Rena Lacerda

E quando a gente coloca na balança a dimensão continental do Brasil, e que estamos aqui na ponta de cima, no Nordeste, fora dos grandes centros, acho que é ainda mais importante essa sua participação no Salão. É uma forma de dizer para os grandes produtores que aqui, numa cidade do interior da Bahia, também tem quem faça arte, né?
JoJu-Exato, eu sempre costumo dizer que aqui em Conquista tem artista pra todo lado. Tem quem faça filmes, música, desenhos, livros e esculturas. O que aqui precisa é de mais incentivo, tem artista pra exportar aos montes, não fica só centrado em capitais. Lógico, lá também tem e foi selecionado o grande cartunista Gilmar que é baiano, e também o Rui Miranda. Dois que foram vencedores dessa edição e de outras passadas, mas em Conquista em questão de arte, se precisar buscar aqui, tem bastante!

Aí agora, quais são os seus projetos? Você também faz zines, né?
JoJu-Sim, o primeiro Zine que fiz eu nem sabia que existia esse termo ou categoria. Mas foi na primeira série mesmo em 2002, uma histórinha fofinha de um rato e um gato. Depois, até 2006, eu fazia uns com historinhas do homem aranha, que eu trocava ou dava pros amigos lerem.
Depois chegou um tempo que eu comecei a sentir que eu estava "copiando" e não criando, me deu um certo sentimento de angústia com isso.
Só em 2011 que eu fiz um Zine, já com uma pegada Punk, que foi o "Do Buêro" número 0. Foi bem clichê, mas era bem "Revoltado", por assim dizer. Eu vi o documentário "Botinada,a história do Punk no Brasil" e pirei naquilo, conheci muita banda e tem umas imagens de Zine também. Isso me influenciou demais.
Aqui na cidade, eu lembro de um fanzine punk que era "O Arranhão", foi bem legal de ver isso, porque eu senti que tinha algo próximo de mim, do que eu queria fazer, era encabeçado por Brenda Luara (eu não lembro o restante do pessoal, acho que Hergon Ramalho e Elis Saraiva também participavam), então foi muito importante.
No ano seguinte fiz o "Do Buêro 1", totalmente desenhado por mim e gosto bastante desse, é bem simples e tosco, mas é marcante. Quando eu fiz a distribuição em 2012, num show no centro de cultura, vi muita gente jogando fora ou no chão...hahahaha...isso foi bem desanimador e aí meio que parei.
Só fui voltar a mexer com charge em 2018 por conta da catastrófica eleição do presidente Jair Bolsonaro. Acho que foi a única coisa que eu tinha pra protestar de verdade,o que também rendeu uma capa pro disco "Berrante Controlado", do seu projeto Nem Tosco Todo e as Crianças Sem Futuro. Lembro que escrevi até pra Laerte no Facebook, ela me respondeu muito educadamente alguns dias depois. Eu fiquei bem entusiasmado com isso e meio que até desconcertado, mostrando uns desenhos meus até meio ruins...hahahaha...e ela me respondeu de muito bom grado que as ideias eram boas, mas precisava de uns ajustes pra melhorar. Uma interação muito louca.
Durante a pandemia em 2023, eu reuni uns cartuns que eu fazia no Instagram, porque eu estava muito deprimido com todo aqueles acontecimentos na pandemia e fiz mais um Zine que foi o "Pensamentos cinzentos". Hoje vejo que é melancólico e dramático demais, mas era o que eu estava passando.
Participei da primeira Flicon dando uma oficina de cartuns pelo Multiverso Cultural de Renas Barreto, que inclusive me deu um UP nessa época e distribui lá.
Fiz mais alguns depois e esse ano fiz mais uns três com temas estranhos. Mas pretendo lançar mais um "Do Buêro" até o final desse ano e tenho mais umas ideias pra histórias longas.

Zines de JoJu

E quais suas Influências?
JoJu-Olha, eu gostava muito dos livros de português porque sempre tinha uma tirinha da Mafalda, Calvin e Haroldo. Vez ou outra tinha Laerte ou Angeli. Era muito massa de ver.
O Angeli foi um que sempre gostei muito, as charges dele eram muito carregadas de críticas e ironias, às vezes nem entendia muito, mas gostava do desenho sujo.
Mas um que me marcou bastante foi o americano Robert Crumb. Ele influenciou praticamente todo mundo, o desenho hachurado, símbolo do Underground e histórias críticas pra todo lado. Até mesmo ele se critica. Foi uma mudança de percepção gritante em mim, citar o Crumb é até clichê, porque ele foi o cara que mudou tudo, criou a ZAP Comix, que era altamente crítica a governos e a sociedade. Tem tanta coisa do Crumb ou influenciada por ele, que é difícil listar, mas todo mundo já trombou com algo dele por ai. O documentário de 1995 sobre ele, "Crumb", é estranhamente muito bom de se ver, recomendo!

Agora o espaço é seu pra falar o que você quiser, sobre o que quiser!
JoJu-Primeiro quero agradecer Rena Lacerda, lá de Piracicaba, que nos mandou os vídeos e fotos da exposição das minhas obras. Mas tem outra coisa que eu queria falar. Dei uma oficina na Feira Literária de Conquista. E depois da Flicon aconteceu uma coisa bem legal no meio dos zines aqui, A. bonny, que foi lá no dia pra participar da oficina, mas ela não chegou a tempo, porém conversamos, entreguei uns zines e então ela começou a também produzir zines, com mais pessoas e uma maior distribuição. Até livro lançaram! Isso num espaço curto de tempo, então veja como é importante fazer algo. Isso acaba influenciando pessoas, mesmo que pra fazer dê trabalho e não tenha reconhecimento midiático ou não seja rentável, é possível criar. A ideologia Punk do "Faça você mesmo" é muito importante pra isso, ela faz acontecer, então é muito legal e gostaria muito que projetos de todas as artes se expandissem na cidade!
Quem puder dar essa força, ajuda bastante. Eu hoje continuo fazendo e publicando, porque teve pessoas como você e Renas Barreto do Multiverso Cultural que me deram esse UP quando eu mais precisei. Então passei a acreditar mais em mim. Obrigado!

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