terça-feira, 21 de agosto de 2012

Entrevista com o Fábio Sarjeta

Consegui a entrevista com o Fábio através do meu amigo Jorge Afonso, de Goiânia, e são com essas parcerias que o underground vai se mantendo e crescendo cada dia mais.
O Fábio, como o próprio "sobrenome" já entrega, é o vocalista e baixista da banda Sarjeta, e faz parte também da clássica Excomungados. Mas além disso, o Fábio é um grande articulador da cena underground, seja tocando em suas bandas, ou produzindo gigs, zines e blogs...mas vamos ao que interessa:
Fábio Sarjeta
1-Primeiro nos fale quando surgiu a banda Sarjeta e quais são as influências?
Fábio: Surgiu em 1.996, com colegas de classe do colégio técnico Rui Barbosa em Taboão da Serra na grande São Paulo, influência de diversas bandas de punk rock 77, hardcore old school como Dead Kennedys, Black Flag, Circle Jerks, The Germs entre outras e ska jamaicano, cubano e principalmente the Specials, e com o passar dos anos as influências foram crescendo, gosto de samba como Cartola, Adoniran Barbosa e Noel Rosa, Cool Jazz como John Coltrane, Miles Davis, reggae, rock alternativo dos anos 80 e 90. Minha identificação com a parte literária anarquista e subversiva foi grande inspiração também, posso citar Bakunin, Proudhon, Arthur Rimbaud, Kropotkin, Malatesta, Godwin, Stiner, George Woodcock, Michael Walzer, Clarice Linspector, etc e etc...
Cassio é o guitarrista do Sarjeta
2-E como o público tem assimilado todas essas misturas de estilos?
Fábio: A galera tem respondido bem, grande parte vê de forma positiva nosso esforço pra fazer algo diferente, mas na verdade só temos influências diferentes, misturamos tudo e isso acaba dando a impressão de algo novo, mas sinceramente não é novo, só algo diferente do que rola com as bandas da cena atual.
Sarjeta em Santos-SP
3-A banda sempre toca por São Paulo, como vocês tem visto a cena punk hardcore atual? O que você anda ouvindo de novo?
Fábio: Rola sons direto, diversos por cada final de semana, com certeza é a cena que mais tem público e bandas, até pelo tamanho da cidade e toda história do punk rock paulistana. Ótimas bandas e muita gente envolvida com a organização de gigs. Tenho escutado Leprose, Ataque a Jugular, Kob 82, Motim, Naftaleno, Hemp & Caos, Fusarium, Cama de Jornal, El Touch, Vingança 83, Holocausto Sonoro, Gricerina, Baktéria, Violência Suburbana, Kombativos, Para-raio de Desgraça entre muitas outras bandas.

4-O Sarjeta já tocou também em outros estados. Como foram esses rolés e o que você percebe de diferente nesses shows? E já tocaram até aqui na Bahia, quando foi?
Fábio: Em cada estado existem características locais peculiares, no Rio Grande do Sul, lá a cena é muito ativista, a mais politizada. A cena de Santa Catarina é parecida com a de São Paulo, onde os punks e skins Antifas tomam mais a frente nas realizações de gigs, no Paraná a cena Antifa é forte também, mas assim como em São Paulo é perigosa por existirem muitos Neo-nazistas.
Em Minas Gerais a galera punk tem a menor faixa etária de todo cenário punk nacional, tem pouca gig, mas muito álcool sendo consumido hehheh, em Brasília a cena é forte e as pessoas no geral são muito inteligentes e empenhadas em realizar as gigs, filmes, zines etc. Em especial meu amigo Grilo que é uma das pessoas que mais fazem as correrias pela cena brasiliense e nacional.
O nordeste tem uma cena forte, pessoas muito receptivas, ótimas bandas e o hardcore come solto. O show na Bahia ocorreu em Março de 2.010 em Feira de Santana, foi lindo demais, adorei conhecer as pessoas e conviver por alguns dias com eles, o som foi o melhor já realizado pela banda fora de SP, recepção nota mil, espero voltar em breve pra Salvador e Feira de Santana, pois fiz grandes amizades por lá. 
Sarjeta em Porto Alegre-RS
5-A primeira Demo de vocês foi lançada em 2002, seis anos depois da formação da banda. Qual o motivo da demora pra gravar esse material?
Fábio: Basicamente grana, e mudanças na formação da banda. Como a grana saiu do meu bolso e meu bolso costuma estar sempre vazio, além de demorar a qualidade das gravações não saíram da maneira que eu desejava, por outro lado sempre achamos que poderia ficar melhor hehehe.
Capa da demo de 2012
6-Como foi a distribuição desse material? Foi na base do faça você mesmo, ou teve a colaboração de algum selo?
Fábio: Eu distribui em shows e aos amigos que via no dia a dia, atualmente tem todas as gravações disponíveis gratuitamente neste site http://bandasdegaragem.uol.com.br/banda/sarjeta
Porceta é o dono das baquetas do Sarjeta
7-Em 2007 a banda participou de uma colêtanea Anti Tributo ao Excomungados, banda clássica dos anos 80. Como surgiu esse convite?
Fábio: A idéia foi do Rodrigo de uma banda anarco punk da USP, e acabou entrando uma música na versão do Sarjeta e outra chamada Baratas do também membro da banda Excomungados o Xines, nome deste projeto dele é FLIT.
8-E por falar em Excomungados, hoje você toca com eles. Como foi que se tornou um membro da banda?
Fábio: Conheci a banda em 92, era uma das minhas bandas favoritas, e nesta época a banda estava parando, praticamente não existia mais. Quando a banda voltou em 2.000 eu colava nos sons, e sempre era convidado para tocar com eles, até que o Chinês me disse “ai Sarjeta, fica de vez na banda, porque ta foda” kkkkkkk. E sai do banco de reservas e virei titular.
Excomungados 20 anos
9-Quais foram os discos que você gravou com o Excomungados?
Fábio: 20 anos, ao vivo no Crusp, Anti tributo e algumas coletâneas.
Clipe da música Drogas de Governo com Sarjeta e Excomungados

10-Além de tocar nas duas bandas, você ainda produz shows, escreve para alguns blogs também. Como é essa vida fazendo tanta coisa ao mesmo tempo?
Fábio: Atualmente dois blogs tem colaboração minha, o Sub Punk e Criatividade e Combatividade além da revista de rock do ABC Rock Central. Sempre curti organizar gigs e fazer zines, é somente inclinação e vontade de agir do modo que se propõe, combater a falta de ideais e autenticidade dentro da arte em geral, somos animais políticos, não no sentido partidário, mas no sentido de política ser vida, são relações que vivemos o tempo todo, se ignorarmos isso, seremos mais uma espécie de animais controlados, como gados.
Eu sou do subúrbio, e de uma família muito católica, e o movimento me abriu a cabeça contra o racismo, desigualdade social, homofobia, machismo, femismo, estado etc. Portanto minha formação ideológica, meu caráter, personalidade etc, devo principalmente ao movimento punk. Tenho que retribuir isto, sou um cara que decidiu dedicar a vida ao punk rock e movimento punk.
Prefiro viver na sarjeta, que me entregar à mediocridade do mainstream, da sociedade e todo o seu moralismo hipócrita e suas prateleiras morais, e a qualquer demência coletiva religiosa. Punk é o que me faz acordar todos os dias. Enquanto eu dou um passo, a realidade, dá dois, mas no dia seguinte eu darei três. O movimento Punk é minha muleta, minha vida.

11-No final as histórias que ficam, né? Conte pra gente uma boa e uma ruim durante essa sua vivência no underground:
Fábio: É difícil escolher uma, mas quando ajudamos pessoas que necessitam com alimentos, roupas e fazendo as pessoas pensarem e agirem de forma mais coletiva, complacente e altruísta, são coisas altamente gratificantes e me trazem felicidades. Envolver isto tudo com o fato de estar em cima do palco é algo que não consigo traduzir em palavras o quanto me sinto realizado.
Negativas foram algumas, a mais recente e que ainda dói muito todos os dias é o fato de ter perdido um amigo, um irmão há um ano atrás, seu nome era Johnny, era filho do ex integrante da banda Excomungados o Falcão, outro grande amigo meu, ele foi assassinado por carecas e neo-nazistas, uma das milhões de vítimas ao redor do mundo, mas com certeza a que mais me abalou. Desde então em todas apresentações do Sarjeta sinto um enorme vazio ao olhar a galera pogando e não ver ele agitando como ninguém e cantando junto comigo.
Fábio com o amigo Johnny
12-E depois de tantos anos na cena, com muitas tretas e furadas. O que o faz querer continuar?
Fábio: Amor a revolução, ao punk rock, a minha banda Sarjeta e aos amigos que fiz dentro desta eterna batalha.
Fábio com a galera do Excomungados em frente a loja do Xines
13-E o que esperar do Sarjeta daqui pra frente? E o Excomungados tem preparado algo novo?
Fábio: Grandes pretenções não é um mal que eu sofra hehehe. Quero continuar tocando e levando o nosso som ao máximo de pessoas que possam ter acesso ao nosso trabalho. Lançaremos no começo de 2.013 um cd com músicas inéditas dos Excomungados comemorando 30 anos da banda.

14-Véio, o espaço é seu pra divulgar o que quiser, endereços das bandas na net, agenda de shows, falar sobre o que não perguntei...diga aí:
Fábio: Obrigado pela oportunidade, é sempre um enorme prazer falar sobre punk rock, parabéns pelo trabalho desenvolvido por você com o blog e sua banda. Um recado para os leitores, se você tem um amigo racista, homofóbico, xenófobo, machista, femista, ou que tenha qualquer outra atitude fascista... ELE NÃO É SEU AMIGO!
Êra punk, anarquia sempre!

3 comentários:

Pajé disse...

Salve Fabião! Fabião é uma das influências de grande nome do roquenrou ai da Z/S de São Paulo e Sarjeta é uma das únicas bandas que carrega uma boa e velha mistura de influencias pesadas e trouxe isso pro Rock nacional.. Bem louca a entrevista e é isso ai, amor a revolução! Ééééé nóóóis! PAJÉ PISANTES!

freakstein disse...

muito bom! parabens

Marcel Andrade disse...

Fabião curti pra caramba a entrevista,q possamos dar continuidade a esse trabalho; pra mim é um grande prazer tocar com vc, uma grande pessoa e um excelente músico... ah sem esquecer do Acassio um ótimo guitarrista! Parabéns manu abraço, tamo junto!