domingo, 3 de abril de 2016

Entrevista com Beto Feitosa do Pedras que Rolam

Trabalhando há quase três décadas em prol do underground do sertão sergipano, Beto Feitosa alimenta em seu currículo parcerias históricas dentro da cena alternativa (rock em todas as direções). Através de seu programa de rádio semanal na cidade de Canindé de São Francisco, extremo noroeste do estado de Sergipe, ele faz a conexão com as novidades produzida no Brasil e no mundo afora. De quebra, organiza eventos com bandas que são ouvidas no programa, produz discos e distribui ensinamentos de como se organizar um festival com oito bandas -sem edital- e proliferar a cultura do faça você mesmo às novas e antigas gerações.
Beto Feitosa apresentando o programa Pedras que Rolam.
Quando surgiu a ideia e o que o motivou a fazer o programa “Pedras que Rolam” na Rádio Xingó FM, Canindé do São Francisco SE?
Beto Feitosa- O projeto existia há muito tempo, desde a época que morava em São Paulo. Nos anos 80’ costumava ouvir a FM 97 Rock (ABC FM de Santo André/SP), ficava imitando os locutores da época e sonhava com um programa direcionado ao Blues, Jazz e Rock nas suas diversas vertentes; neste mesmo período fundei com amigos da Vila Carrão na Zona Leste a Equipe U.P.R., fazíamos de tudo, desde a discotecagem residencial, até as pequenas festas punks animadas ao som dos K7s e alguns LPs (Vinil). No entanto, coloquei meu sonho em pratica no inicio de 1992 logo após iniciar moradia fixa em Canindé de São Francisco/SE. O projeto/programa entrou na grade de uma emissora comunitária da igreja católica com duração de uma hora e trinta minutos, durou pouco menos de três meses, encerramos devidas divergências com a diretoria da época. O programa Pedras Que Rolam com o formato atual iniciou em outubro de 2009, após muita persistência e trabalho duro dentro do cenário local e regional. As emissoras comerciais FM e AM da região só colocavam em sua grade musical diária as bandas que já estavam no mercado, na sua maioria ligada à grande mídia ou aquelas que possuíam empresários gerenciando e promovendo ($); algo similar ao “popular” e “repetitivo” que é empurrado goela abaixo todos os dias como se fossem representantes do nosso gosto musical ou antimusical.
http://www.radios.com.br/aovivo/radio-xingo-98.7-fm/18436
Beto, o que mudou do lançamento do Zine Underground Store nº1 até chegar ao ar o Programa Pedras Que Rolam?
Beto Feitosa- Ocorreram diversas mudanças, muitas favoráveis e outras nem tanto. Não tínhamos espaço na mídia comercial e precisávamos urgente de algum meio para divulgar e fortalecer os eventos, projetos culturais e bandas da nossa região.
Na época recebia muitos zines e informativos independentes que chegavam acompanhados de carta via correio, outros exemplares foram doados pelo Luiz Umberto (Rapadura Discos), fazia questão de ler todas as publicações e copiava a maioria, distribuindo gratuitamente os materiais para melhor informação dos amigos em nossa cidade, a partir disto vingou a ideia de preparar nosso próprio zine. Apesar do pouco tempo disponível esbocei uma matriz (boneca) do “Underground Store Zine”, e, em setembro de 2004 colhi opinião de alguns leitores da região. Fiquei muito feliz com as opiniões quase 100% favorável e em janeiro de 2005 lancei a 1ª edição com cinquenta exemplares que foram distribuídos gratuitamente pelo Brasil afora. Lançamos outras edições, todas com mais de 20 paginas e com tiragem de 100 exemplares que foram distribuídos para o Brasil e alguns países. Depois destes avanços na Cena local, surgiram outros informativos nas redondezas, festivais, gigs e ensaios abertos foram realizados e como consequência de toda movimentação independente na cidade e região, conseguimos levar ao ar o programa Pedras Que Rolam em Outubro de 2009.

São vários anos de programa, até parece fácil, mas quais os desafios enfrentados e as estratégias para manter um programa de rock no sertão sergipano por tanto tempo?
Beto Feitosa- Inicialmente foram concedidas duas horas de espaço na grade da FM todos os domingos, ou seja, das 20 às 22 horas, era um horário com audiência fraca na época, conforme me avisou o diretor geral Paulo Costa, que me procurou para organizar e apresentar um programa com liberdade musical, ele queria um programa de rock diferente e que conseguisse agradar os ouvintes da região. Topei na hora, já tinha tudo pronto! Lapidei o esboço do programa que já possuía em mãos e dois dias depois apresentei passo a passo para toda diretoria da FM, para minha surpresa oito dias depois estava no ar nosso programa piloto (teste). De outubro de 2009 quando iniciamos até junho de 2010 foi sofrimento geral; trabalhava o dia todo de segunda a sábado e sobrava pouco tempo para organizar a programação; queda do sinal da internet, ausência de apoio físico e despesas com aquisições de materiais e envios de brindes, etc, saiam do meu bolso. Devido acumulo de trabalho cheguei a me licenciar durante seis programas para organizar as minhas correrias particulares, porém, a diretoria me pediu que retornasse o mais breve possível, não aprovaram o apresentador substituto. Retornei as atividades com mais energia e sigo até hoje nesta boa luta, atualmente é muito rock em todas as direções todos os domingos das 20 às 23 horas com ótima aceitação dos ouvintes e críticos. Nada foi fácil e exigiu muito trabalho, divulgação, perseverança e principalmente paciência. O retorno financeiro para a emissora foi o aumento da audiência (pela energia da antena e especialmente online), reconhecimento da FM em todo o país e exterior e aquisição de patrocinadores diferenciados para fortalecer o financeiro, pois a emissora é comercial.
Somente para esclarecer os desavisados, não recebo nada (R$ 0,00) para produzir e apresentar o programa; faço porque amo tudo isto e sou imensamente feliz por saber que atualmente temos ouvintes espalhados pelo Brasil afora e parte da América do Sul.

Quando você percebeu que o Programa estava dando certo?
Beto Feitosa- Quando comecei receber telefonemas com diversas blasfêmias e ameaças (risos)! A realidade era que o horário dominical que foi preenchido pelo programa Pedras Que Rolam tinha uma audiência sofrível. Fui procurado pelo diretor geral da emissora para criar um programa de rock diferenciado e abrangente, que ao mesmo tempo aumentasse a audiência no horário. Atualmente somos o 1º lugar online em toda região sertão e continuamos a crescer a cada dia. Recebemos muitos comentários benéficos de “gregos e troianos” e mantemos a mesma simplicidade anterior e respeito com todos os ouvintes sem discriminação. Nosso programa marcou definitivamente a forma de interagir com o publico e com as bandas, outros programas em nossa cidade e alguns municípios vizinhos seguiram a mesma linha. Estamos no ar há cinco anos e dez meses, sempre quebrando as barreiras do preconceito e fortalecendo as bandas independentes, surpreendentemente em uma emissora comercial que atinge mais de setenta municípios de SE/ BA/ AL e PE.
Aquilo que muitos achavam impossível de ocorrer em municípios mais avançados, hoje acontece no pequeno município do sertão de Sergipe.

Em relação às redes sociais, existem algumas críticas no sentido de que elas têm causado ausência de público nos eventos de rock, bem como, acomodações e isolamentos do segmento. Você concorda que o uso e a popularização das redes sociais estão sendo danoso para o cenário?
Beto Feitosa- As redes sociais não prejudicam o comparecimento do publico nos eventos, se utilizada com critério e sabedoria ela pode até colaborar para o sucesso da festa. Claro, temos os viciados digitais que deixam de comparecer para vegetarem em frente ao PC, porém, aqueles que amam verdadeiramente o rock continuam a apoiar os eventos e toda movimentação.
Existe outro meio bem mais perigoso que vem corroendo as estruturas do rock em suas diversas vertentes e quase ninguém nota; a televisão passa para o publico a imagem da violência atrelada ao rock pesado, noticias absurdas são enfeitadas e divulgadas em telejornais que se dizem sérios. Boa parte da programação televisiva é de um grau de mediocridade abominável, agradando aos mais baixos padrões de inteligência. Tudo em nome da audiência e de faturamento ascendentes. Os telespectadores que se danem e consumam o lixo cultural que está sendo oferecido diariamente. Na maioria das emissoras mostram o pop comercial como se fosse musica rock da melhor procedência, a consequência disto é o desconhecimento/esquecimento em massa das bandas independentes/underground que fazem o rock e derivados com amor e garra. Qual seriam as opções para conhecer as bandas independentes e as novas que surgem a todo instante? A internet esta em primeiro lugar por oferecer muita diversidade (Blogs, redes sociais, pesquisas, etc.); temos os programas de rock e derivados que feitos com seriedade podem fortalecer as bandas e os eventos alternativos; informativos/ zines/ revistas independentes podem ajudar muito na interação do publico.
Beto fazendo abertura do Underground Store Festival em 2015.
O que aconteceu com o Alternativo Rock Canindé?
Beto Feitosa- Depois das eleições em 2012 a cidade mergulhou numa onda de atraso com o inicio da administração de um Pastor demagogo e politiqueiro. O Rock e seus derivados tiveram as portas fechadas e as exigências aumentaram e se tornaram absurdas para realização de qualquer festa neste segmento. Depois das ultimas tentativas em 2012/ 2013 e 2014 sem sucesso; conseguimos em 2015 o Alvará de utilização do espaço publico, o documento foi pago antecipadamente apesar do valor absurdo para realização do festival neste porte. Juntamente com nosso Grupo Usina de Artes decidimos mudar o titulo do festival e a formatação desta edição para atingir um público mais amplo e diversificado.
O Underground Store Festival aconteceu no Mês de julho/2015 e apesar das dificuldades e falta de apoio realizamos a festa com sete bandas de SE/ BA e AL e obtivemos um bom público e pela primeira vez conseguimos pequeno lucro, mesmo com as chuvas torrenciais naquela noite, fomos agraciados com o sucesso merecido.
Público presente no Underground Store Festival
Festival underground com oito bandas é miopia do organizador, planejamento de falência administrativa ou falta de experiência no assunto?
Beto Feitosa- Festival underground com oito bandas é loucura, mas não é inviável. Tudo dependerá do planejamento e administração do organizador e seus parceiros. Presenciei muitos eventos com três, quatro e cinco bandas que não deram certo por motivo da inexistência de planejamento antecipado. Notem este exemplo: Há alguns dias um colega que organizou Festival Metal em Aracaju me ligou dizendo que compareceram menos de 20 pessoas na festa, fiquei abismado a principio e questionei sobre o que aconteceu, afinal, eram cinco bandas conhecidas e acostumadas na estrada, mas ele não sabia explicar onde começou o erro... E argumentou sobre as varias caravanas de outras cidades que estavam marcadas, porém, nenhuma compareceu no local. Conversando com organizadores que sofreram prejuízos e outros desacertos nos seus eventos anteriores, percebemos que as falhas são muitas, porém, deixamos apenas algumas dicas:
Tenha em mãos o seu projeto da festa, mesmo que seja somente um esboço. Vá adicionando por escrito tudo que você perceber não constar, desta forma você melhora e engrandece o seu evento.
Valorize as bandas participantes, tanto no quesito financeiro, como no suporte geral.
Faça muita divulgação da sua festa em meios diferentes e confiáveis.
Falta de informação para o público e as informações desencontradas sobre o evento, podem diminuir o interesse na sua festa.
Tenha disposição e tempo para buscar patrocinadores na sua região, sempre mostrando as vantagens e o retorno para o empresário ou pessoa física.
Os valores ($) adquiridos antecipados na venda de ingressos e patrocínios não deverão ser gastos antecipadamente em outras despesas que não sejam aquelas da própria festa.
O trabalho, a credibilidade e a paciência devem ser prioridades para um bom organizador; quando as bandas e o publico retornam dos eventos falam sobre o mesmo durante algum tempo; este fator pode ser favorável ou desfavorável para o sucesso de sua próxima festa.

Imagino que você tenha várias bandas para destacar, porém, qual atualmente, você recomendaria para ouvirmos?
Beto Feitosa- Nesta questão posso pecar por não escolher alguma banda de qualidade, afinal, temos uma infinidade pelo mundo. Ultimamente têm surgido muitas bandas que estão surpreendendo, seja nacional ou internacional. Citarei algumas que se destacam em minha opinião, porém, sem distinção de época: Blues Pills, Seu Montanha, Agathocles, Deep Purple, Ramones, Chuck Berry, Led Zeppelin,The Baggios, Claustrofobia, Deus Castiga, A Bolha, Gangrena Gasosa, Misantropia, Made In Brazil, Sepultura(antes), Pastel de Miolos, Karne Krua, Slayer, Doom, Extreme Noise Terror, Hatend, Terrorizer, The Stooges, Flicts, Morcegos, Bob Dylan, Cruz da Donzela, Ferdinando Blues Trio, Agrotóxico, Distintivo Blue, Horda Punk, Casca Grossa, Não Conformismo, Plástico Lunar, Protesto Suburbano, Rot, Carlos Santana, Brazilian Blues Band, No Sense, Warcry, Lokaut, Social Distortion, Creedence, Mastodonte, Rosas Negras, Demented Are Go, Eagles, C.A.M., Stonex, Crosby, Stills, Nash & Young, Masher, Madbal, Ana Popovic, Rotten Flies, Stevie Ray Vaughan, Mopho, Riveros, Cama de Jornal, Vendo 147, Snooze, Sick Sick Sinners, AC DC, Krisium, Armagedom e muitas outras.
Beto Feitosa e Silvio do Karne Krua
De vez em quando eu leio ou ouço algumas bandas questionando por espaço na grande mídia do País. O rock, atualmente, ainda precisa do espaço na grande mídia? Qual o papel desta para o fortalecimento do rock?
Beto Feitosa- As bandas que fazem o verdadeiro rock independente não necessitam de espaço na grande mídia, elas fazem seu próprio caminho, podemos citar diversas bandas que lutaram com perseverança e conseguiram seu espaço com esforço próprio, vou nomear apenas uma, Karne Krua! Algumas pinceladas de marketing de maneira discreta são sempre bem vindas para elevar o conhecimento do publico referente à banda e suas ações, porém, com muito cuidado para não se tornar refém do sistema.

Defina o que é Cena. O que atualmente influencia negativamente para o enfraquecimento do cenário nacional? Suas considerações e nosso profundo agradecimento!
Beto Feitosa- A definição de Cena pode abranger muitas explicações, cito exemplos: Conjunto de personagens, atores, coadjuvantes e outros tipos; qualquer ação que se passa dentro do âmbito de visão do observador; lance ou passagem de uma peça; qualquer ação ou debate, ruidoso ou descomedido feito em público; lance ou passagem de uma peça; entre outras explicações.
Cena é como se fosse um teatro, palco, onde as pessoas fazem parte de um movimento artístico e todos juntos formam o que chamamos de uma Cena local ou regional. Toda movimentação feita em prol de bandas, Teatro, shows, zines, programas de rádio, e afins, são partes deste cenário, portanto, ela pode ser derivada de qualquer estilo musical e não somente do rock. Usualmente esta ligada intimamente ao underground ("subterrâneo", em inglês), que é uma expressão usada para designar um ambiente cultural que foge dos padrões comerciais, dos modismos e que está fora da grande mídia.
O que mais tem enfraquecido o cenário alternativo e muitas vezes destruído em alguns locais, são as grandes mídias ligadas às gravadoras e produtoras com interesse exclusivamente capitalista. Outros fatores que minam o desenvolvimento da Cena são as bandas imaturas que se acham estrelas e criticam sem fundamento outras bandas independentes pelo estilo da sonoridade diferenciada, este fator colabora para a divisão de estilos musicais nos eventos e consequentemente enfraquece ainda mais a pouquíssima união existente; ausência de casas e espaço para shows, às vezes nenhuma no interior abre espaço para apresentações autorais e underground; produtoras, gravadoras, distribuidoras que fingem apoiar bandas emergentes independentes e na realidade são abutres a cata de dinheiro para sua opulência.
Não reclame, mude para que as coisas mudem e façam vocês mesmos as movimentações; Zines, Gigs, Filmes, revistas, pinturas, artes em geral... Ultrapasse os muros da inércia! Solícito as bandas independentes que usem suas armas; microfones, guitarras, contrabaixos, baquetas, amplificadores, etc. e façam com que esta munição não seja inofensiva se comparada aos imponentes cifrões que comandam o sistema vigente.Agradeço aos amigos (das antigas) Danilo Cruz e Décio Filho pela entrevista, aproveito o ensejo para pedir desculpas pelo atraso no envio das respostas.
Finalizo com uma frase da grande benemérita, Madre Tereza de Calcutá; “Sei que meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele, o oceano seria menor”.

Texto: Danilo Cruz
Entrevista: Décio Filho e Danilo Cruz.
http://www.radios.com.br/aovivo/radio-xingo-98.7-fm/18436



3 comentários:

Beto Feitosa disse...

Grato Nem Tosco Todo, Danilo Cruz, Decio Filho pelo fortalecimento, nunca imaginei que esta entrevista fosse parar justamente em um Blog que acompanho, utilizo como fonte nos meus trabalhos e do qual sou fã, lisonjeado! Sou muito feliz justamente por fazer o que gosto, enquanto tiver forças continuarei na boa luta! Saúde e Paz na caminhada de todos!

NEM, TOSCO TODO - SELO DE DIVULGAÇÃO disse...

A gente que agradece a você, Beto, por tudo que tem feito pela cena rock brasileira, principalmente a chance que vc tem dado para as bandas mais undergrounds!!!

Rosana Lima Silva disse...

Conheço este cara de grande coração, batalhador incansável, faz muito tempo. Sempre inovou na divulgação do Underground, enquanto alguns falavam, ele fazia. Parabéns bela entrevista!