sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Rural 64 lança Qual foi, cabeça?

 

Banda Rural 64. Foto por Campos Fotografia

Beirando a meia noite de uma sexta feira ociosa, tô voltando aqui nesse blog tosco, pra bater um papo com Hudson Simões, vocalista da banda Rural 64, que lançou hoje o seu novo trabalho "Qual foi, cabeça?"
Eu tô ligado que o povo tem preguiça de ler, mas a entrevista é nossa e fazemos do jeito que achamos melhor. "Se não se agradou, vai tomar no seu botão" (quem ler até o final, vai entender a citação).
Se liga e dá o play no disco novo dos caras e vida longa ao som autoral de Conquista!

Hoje chegou o dia do lançamento do disco "Qual foi, cabeça?". Como andava a expectativa de vocês?
Hudson - A expectativa foi gigante, todo mundo muito ansioso e querendo que ficassem logo disponíveis as músicas em que tanto trabalhamos para chegar ao resultado que agora todas as "cabeças" podem conferir. 😂😂😂
Nas plataformas tem um horário disponível para a distribuição. E os caras acordaram hoje contando os minutos para ver as músicas distribuídas. 😂😂😂

Segundo álbum da Rural 64

"Qual foi, Cabeça?" foi gravado de forma totalmente caseira?
Hudson - Sim, foi totalmente caseira e com os recursos que estavam ao nosso alcance. O que deixa o desafio ainda maior e divertido também. Tinha dias que estava calor pra caramba e 5 "cabeças" dentro de um quarto tendo que isolar som quando era captação de voz, aí cê já sabe, a resenha é gigante nessas situações.

Os outros dois discos anteriores também foram gravados em homestudio?
Hudson - Na verdade, o disco de agora é o segundo😂😂😂. No primeiro disco que iria ser um EP, o "Vamo de Rural", conseguimos juntar uma parte do dinheiro com alguns eventos da época e tivemos a ajuda e apoio que temos desde o início da banda que é Zilda (Bilu) e Paulo, eles nos ajudaram com a outra parte, além da correria de deslocamento e todas situações possíveis.
Aí gravamos lá em Deyvison, ele deu uma grande força pra gente também, fazendo um preço bacana, além de nos trazer muitos conhecimentos e nos entender naquele momento tendo em vista que a gente era tudo moleque ainda com pouquíssima experiência.

Hudson Simões. Foto: Emanuel de Matos

Deyvison é o guitarrista da antiga banda Tryumphall?
Hudson - Isso, ele mesmo.

Ah, massa! Já gravei umas vozes de um disco do meu projeto lá com ele. Gente boa demais! Voltando aqui. Vocês fizeram alguns shows esse ano, né? Tocaram as músicas desse novo trabalho ao vivo? Como tem sido a receptividade da galera para as músicas da banda?
Hudson - Massa demais, muito gente boa ele. Isso mesmo, no Festival Conquista Punk Rock, tocamos uma boa parte das novas músicas, o público foi muito receptivo, ficamos surpresos em ver algumas músicas já tendo os refrões sendo cantados. Tivemos também alguns feedbacks, teve gente perguntando quando iria sair às músicas, dizendo que curtiu e queria escutar. Acredito que isso também influencia muito na ansiedade do lançamento, ficamos na expectativa de entregar pra essas pessoas que escutaram ao vivo e cobraram gravação. 😂😂😂
Tocamos o disco quase completo no projeto "Fome de Autoral", lá no Fome Stop. A galera que estava presente foi bastante receptiva também. Muitos vieram falar depois da Coragem de tocar um repertório 100% autoral.
Banda Rural 64 no Festival Conquista Punk Rock. Foto: Marlon

Eu estava nos dois shows e posso afirmar que a energia da banda ao vivo é muito foda!  E acho também que é natural essa expectativa do público que viu ao vivo, querer escutar o disco, né?
Hudson - É uma satisfação imensa saber disso, Nem, tendo em vista que você é uma referência muito importante pra gente. E ter essa visão vinda de você só deixa a gente mais felizes e motivados. É isso, acredito que ao mesmo tempo que a gente tá ali tendo essa recepção e expectativa, nós tentamos nos colocar também no lugar do público e entender tudo o que está acontecendo. Posso dizer que ficamos bastante empolgados junto com a galera.

Eu tô escutando o disco aqui agora, e logo pra começar tem a faixa "Bota pra quebrar", que como o nome sugere, é uma faixa pra cima! Mas aí veio a faixa "Esquenta o coração" que começa com uma bateria com uma batida de galope e depois vira um hc melódico. Depois tem outra faixa que achei diferente, chamada "Ghost man". De onde vêm essas influências? O que vocês estavam escutando de referência pra gravar esse álbum?
Hudson - As influências são muitas, o fato de todo mundo escrever as letras na banda, acaba trazendo muito do individual de cada um e aí nos ensaios as músicas acabam passando por uma transformação também. Tudo acontece de forma muito natural e espontânea. "Bota pra quebrar" é de autoria de Cássio Bruno (Baixista), na música ele traz influências dele e também da própria forma de fazer música da Rural, essa coisa mais agitada. "Esquenta o coração" é uma composição de Hugo (baterista), ele disse que tava tocando "Chiclete com Banana" aqueles discos antigos deles que tocavam forró, olha só pra tu vê 😂😂😂, aí ele se inspirou percebendo a sua memória afetiva de infância em contato com o São João do interior e também percebendo a bateria que lembrava o ritmo do HC imaginando ela mais acelerada. "Ghost man", é uma regravação do projeto solo de Hugo (baterista), ele tem muita influência do rap e da psicodelia no projeto solo dele, aí achamos interessante e resolvemos testar no ensaio em uma pegada "Rural", nessa faixa ele faz o vocal das estrofes. Aí é basicamente isso que rola no processo de criação.

Cássio, Hugo, Allan e Pablo completam a Rural 64. Fotos: Emanuel de Matos

Ah, legal. E o disco tem participações especiais também, né?
Hudson - Sim, conta com a participação de Decairu (Rodrigo). Ele participou de duas faixas, "Gestão árdua" e "Quebramola". De início fizemos o convite pra participar somente de "Gestão árdua", aí durante a gravação em uma conversa, falamos que iria ser muito interessante ter o vocal dele em "Quebramola", mostramos para ele na hora e aí ele aceitou.

Rodrigo é um cara muito foda! Pra quem não sabe, ele era vocalista da banda Dona Iracema e hoje tem uma nova banda chamada Preá.
Pra fechar, Hudson, me fala de onde veio a ideia da ultima faixa "Vai tomar no seu botão"? Rapaz, "Não tenho paciência/Não quero discussão/Aqui ninguém se abala/Com a sua opinião".
Eu achei isso sensacional! De quem é a letra?
Hudson - Rodrigo é muito foda mesmo!
Essa faixa veio de uma resenha no ensaio da Rural, a gente costuma desabafar sobre várias coisas da vida, aí eu e Cássio (Baixista), começamos a falar algo do tipo "não vamos nos abalar com isso", "se não agradar, vai tomar no c#". Primeiramente falamos de forma mais expressiva😂😂😂, depois começamos a cantarolar isso como refrão. Aí eu fui pra casa e escrevi a estrofe, levei pra um dia de gravação e mostrei, aí ele pegou o violão e começou a botar os acordes. Daí pra frente, virou um hino nos ensaios 😂😂😂

Muito foda! Hudson, brigado por acreditar na música autoral de Conquista! O espaço é seu pra falar o que quiser ou sobre algo que esse tosco que vos escreve deixou passar!
Hudson - Antes de tudo, eu agradeço demais em nome da Rural, por tudo o que você tem feito pela cena de Conquista, isso é um dos principais motivos de nos fazer acreditar no som autoral. Agradeço pelo espaço e apoio de sempre. Autoral é memória e isso é algo que fica, independente da quantidade de gente que alcança. O retorno é a felicidade de fazer acontecer.


CONTATOS:


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

3 bandas baianas que prometem novo álbum para 2026

 


Estou de volta para falar sobre bandas baianas que estão em processo de composição de seus discos (sou antigo, sempre vou falar "disco", mas pode ser álbum também).

Pra começar, acho de suma importância o registro histórico de uma época através dos discos, para que uma cena se estabeleça e perdure por muitos anos. Dito isso, vamos ao que interessa!

Hoje trago aqui 3 bandas baianas, de Conquista, que têm investido no som autoral, fazendo shows, disceminando suas ideias através da música, seja ela, punk, hardcore, rock, pop ou como você queira denominar ou rotular.

1-Signista

Signista é Lobbo, Fábio e Reno.
Formada em 2008, a Signista é uma banda de Vitória da Conquista. A história recente da Signista tem sido movimentada por mudanças de formação e desabafos nas redes de Reno, vocalista, guitarrista e principal compositor da banda, sobre os desafios de se viver de música. E para a surpresa de todos os fãs, a banda anunciou um hiato por tempo indeterminado. No que parecia o fim de um ciclo, a banda gravou o seu 4º álbum de estúdio, intitulado Signismo.

Em meio a tudo isso surgiram postagens nas redes oficiais do grupo intituladas Signista na Obra, que mostrava a realidade e os perrengues de bastidores da banda, incluindo a busca por um novo baixista para conseguir dar continuidade aos trabalhos e apresentações programadas.

Apesar dessas idas e vindas, a Signista se mostrou um nome respeitado na cidade, com um grande número de fãs e com composições intensas e muita energia nos palcos.

E é aí que vamos falar do próximo disco intitulado Signismo. Conversei com Reno sobre como anda o projeto e ele disse que lançaram dois singles. "O Pai do Grunge é uma música que tinha funcionado ao vivo, a gente tocando nos shows. Ela não ia ser a música que a gente ia lançar o primeiro single do álbum, ia ser outra música. Mas como o pessoal começou a ouvir nos eventos, começou a perguntar dela e a gente falou; vamos lançar essa! Até porque ela também é uma música mais fácil e rápida. Com a introdução mais curta."


Depois do primeiro single, a Signista lançou a faixa "Borboletas". A música é uma homenagem póstuma ao Palhaço Pinote, um figura muito conhecida em Conquista e região. Sobre isso, Reno disse que "Borboletas que seria o primeiro single. Porque ela tem algumas partes que são poesias de Pinote, que eu adaptei na letra. Ela tem uma questão social também, sobre a negligência médica nos hospitais públicos."

Só para contextualizar o que Reno disse, Pinote teve um problema de saúde e foi levado ao hospital, onde, supostamente, sofreu negligência no atendimento, vindo a falecer.


Sobre a sonoridade da música Borboletas, Reno esclarece que é uma faixa que tem "o apelo mais rock'n'roll, sem ser aquela coisa de Spotify que você já tem que começar logo com o refrão. As músicas não podem ter uma introdução, que a galera já pula a faixa. Então essa daí já é para ir contra total esse sistema novo que o pessoal implanta no mercado da música!" E complementa falando; "o álbum sai dia 25 de setembro, né, nome do álbum Signismo, 11 faixas! É isso. Valeu aí, velho!"

Então, acompanhe a banda que no dia 25 de setembro tem disco novo da Signista!

Contatos: Instagram.com/signista_band


2-Rural 64

Primeira coisa que pensei quando vi esse nome, foi de onde tiraram. Sobre isso, Hudson Simões, vocalista da banda disse que "a Rural é um carro do Ano de 1964 que fica estacionado no local de ensaio e com isso tornou-se o nome da banda." A Rural 64 tem se destacado na cena conquistense pelo show animado, com bastante influência do Hardcore, do Punk e do Rap, Ser autoral é algo também que tem chamado a atenção.

Desde 2014 existindo e resistindo em Vitória da Conquista-Ba, a R64 conta com dois álbuns lançados e está prestes a lançar o terceiro e mais recente Qual foi, cabeça?

Com a arte da capa idealizada por Cássio Bruno e arte final por Hudson, O disco vai ficar disponível em todas as plataformas digitais, inclusive no YouTube no canal da banda @rural64. Segundo Hudson "o álbum sai agora dia 28 de agosto." Perguntado sobre a produção do disco, Hudson disse que "a concepção do álbum começou de forma muito orgânica a partir do grande fluxo de composições da banda. Todos os integrantes escrevem bastante e as ideias ganham forma durante os ensaios, mas o excesso de material trouxe o desafio de como viabilizar e bancar financeiramente a gravação de tantas faixas em estúdio tradicional."

Aí entra o velho lema do punk: "faça você mesmo"! Hudson disse que com "a facilidade de integrantes com softwares de áudio, edição e mixagem, passaram a gravar de forma caseira, unindo os equipamentos que cada um tinha, como computador, interface de áudio, microfone e fone de ouvido."

Banda Rural 64 é Hudson, Hugo, Cássio, Allan e Pablo.
Ainda sobre a concepção do novo disco, Hudson disse que "para amadurecer o processo, movimentar as redes e entender a recepção do público, foi traçada uma estratégia de lançamentos que durou cerca de seis meses. Nesse período, saíram dois singles oficiais que fazem parte do disco, "Chinelo" e "Bota Pra Quebrar."

Sobre o conteúdo das letras, Hudson diz que "a maioria das composições gira em torno da saúde mental, abordando ansiedade, depressão e o peso de viver sob extrema exploração do capitalismo. As letras também retratam as vivências do cotidiano, a rotina cansativa e a pressão das longas jornadas de trabalho, equilibrando críticas sociais e reflexões pessoais."

O disco Qual foi, cabeça? terá ainda uma participação especial de Rodrigo (Decairu), Ex-vocalista da banda Dona Iracema e atualmente da banda PREÁ. Ele participou de duas músicas, Gestão árdua e Quebramola.

Inicialmente o disco teria 12 faixas, mas segundo Hudson "em uma brincadeira entre dois dos integrantes durante um ensaio, surge a faixa “Vai tomar no seu botão”, que fez com que todos concordassem que ela teria que estar no álbum, fechando em 13 faixas."

Siga a Rural 64 e fique ligado no lançamento do dia 28 de agosto!

Contatos: Instagram.com/banda_rural64


3-Escravos da Merenda

Formada em 2013, em Conquista, a Escravos da Merenda conta hoje com Ed Goma, no baixo e vocais, Lázaro Amaral na guitarra e Joanderson Felix na bateria. A irreverência a gente vê logo no nome. E nos shows também, onde a banda conta com a participação do público na distribuição da merenda! Quem nunca foi pra escola só pra comer a merenda, não sabe o que é sofrimento! "Pão, biscoito ou mingau?"

Com uma rede de fãs já consolidada em Vitória da Conquista, a banda já tocou nos principais festivais da região como o Point do Rock, Agosto de Rock e Festival Conquista Punk Rock. O grupo já tocou em outras cidades da região como Poções, Itapetinga e também na capital Salvador.

Escravos da Merenda tocando em Salvador

A Escravos da Merenda também já lançou um disco homônimo em 2023, com 11 faixas. Músicas como Escravo da merenda, Alfazema e Paloma é uma punk são cantadas como hinos pelos fãs nos shows!

Em 2026 a banda promete um novo disco intitulado “Eu vim pra merendar”. Conversei com Ed Goma que disse que "O disco foi feito da forma mais simples que vejo hoje em dia, uma gravação ao vivo, sem metrônomo, de forma direta entre junho de 2025 e agosto de 2026.

Sobre o que se esperar desse novo trabalho, Goma disse que o álbum "conta com 11 canções autorais, baseadas na conjuntura político-social, assuntos pessoais, homenagens, memorias e resenhas da vida cotidiana. A maioria das músicas de minha autoria, mais tem três em parcerias e também algumas participações especiais."

Lázaro Amaral, Ed Goma e Joanderson Felix.

Gravado uma parte no Estudio Drakkar e outra no Estudio Rebetika, o disco já está em fase de mixagem, com previsão de lançamento digital pra outubro ou novembro de 2026.

Ed Goma finaliza dizendo que "Mantendo a estética escolar e merendistica, o álbum será intitulado “Eu vim pra merendar”. Destaque para as faixas, Caminho de Rato, MEC Man, Viagem Perdida e Foi Preciso Internar."

Acompanhe as redes sociais da Escravos da Merenda e fique por dentro das novidades!

Contatos: Instagram.com/escravosdamerenda


terça-feira, 18 de agosto de 2026

O blog Tosco Todo-Selo de Divulgação acabou?


Essa é uma pergunta que tenho que responder constantemente. E repito aqui; Ainda não acabou!
O que ocorreu foi que eu me envolvi com várias outras coisas, escrevi e lancei três livros, estou com mais dois pra lançar, gravei discos, segui minha vida pessoal, e tudo isso me impossibilitou de continuar alimentando o blog. Como a maioria de vocês devem saber, para manter um espaço como este, independente e sem nenhum interesse comercial, é muito difícil. Mas continuo nadando contra a corrente e na resistência!
O que quero dizer com isso? Nada, só estou passando por aqui, pra dizer que uma hora ou outra posso aparecer novamente por aqui, divulgando uma banda, um disco, um livro, uma coletânea ou qualquer outra coisa que me deixe instigado a escrever sobre!
Ah, quer dizer que durante esse tempo que o blog ficou parado, nada me chamou a atenção no underground, a ponto de não me interessar em escrever mais? Não. O underground fervilha o tempo inteiro, com bandas novas, shows, turnês, Tudo continua rolando demais, só eu que não estava com o tempo necessário de acompanhar, pesquisar, ouvir e parar pra escrever e divulgar esses guerreiros que continuam fazendo o underground!
E agora, eu estou com tempo para fazer isso de novo? Não sei.
O que eu fico feliz é que o blog desde o início cumpre o seu papel de divulgação do underground brasileiro (e até de bandas de outros países que entraram em contato e publiquei aqui), de forma gratuita, e sem falar no Selo, que ajudou lançar várias bandas e coletâneas.
Enfim, o blog acabou? Não.
Vai voltar com força total? Também não.
Mas vou tentar, dentro das minhas possibilidades, voltar aos poucos, com a divulgação de alguns lançamentos de bandas.
Lembrando mais uma vez, que tudo isso é sem nenhum interesse comercial!
Nos vemos em breve!

 

sábado, 5 de abril de 2025

Nem Tosco Todo lança novo livro


Nem Tosco Todo lança seu terceiro livro, intitulado "Diálogos Imaginários e Outros Escritos". Com préfácio de Nélio Silzantov, que escreveu:

"Finalmente aqui estamos, mais do que vivos,conforme afirmamos na obra anterior de Nem Tosco Todo, desta vez diante dos seus Diálogos Imaginários e outros escritos. Obra composta por vinte e dois diálogos, seis contos e vinte e três ilustrações fodásticas assinadas por JoJu.

Ao demonstrar, mais uma vez, toda sua criatividade em construir diálogos, Nem se afirma como um dos poucos escritores contemporâneos que dominam este elemento narrativo. Parece até um absurdo dizer isso (alguém pode espernear), mas se engana quem pensa que elaborar diálogos precisos, inteligentes, bem-humorados e críticos, como os criados por Nem, é algo assim tão fácil e comum entre os ficcionistas. Na Grécia Antiga, Platão foi um dos primeiros a se sagrar no exercício dessa técnica considerada uma arte, criando os famosos diálogos socráticos.

No século XVIII, em pleno período Iluminista, o filósofo e escritor francês Denis Diderot foi outro que utilizou a forma para compor O Sobrinho de Rameau, uma crítica radical e satírica à sociedade que fascinou grandes pensadores como Goethe, Hegel, Engels e Freud.

Mas ao contrário dos exemplos anteriores e tantos outros encontrados na História da Literatura, os Diálogos Imaginários de Nem vão direto ao ponto, sem rodeios ou delongas em assuntos que até poderiam se arrastar por horas e horas numa mesa de bar. Trata-se do bom e “velho” DNA Punk na veia (ou na impressão do papel, se preferirem), com suas letras/falas corrosivas e debochadas.

Indo além dos próprios diálogos narrativos, as ilustrações de JoJu complementam a obra, uma troca de ideias entre gêneros literários que, inclusive, põe na roda uma provocação sobre ilustração da capa, produzida por uma Inteligência Artificial.

Questionou-se sobre isso? Não se questionou? Imagine, experimente, se arrisque! Por que diabos utilizar dois estilos?

Há também os Outros escritos, conjunto de seis narrativas igualmente breves, um aperitivo para aqueles que duvidam da sua capacidade de contar uma boa história sem explorar tanto os diálogos (coisa que Nem não precisa provar para ninguém). E se nos diálogos encontramos uma bela homenagem em “Com meu pai”, o conto “Mulher acolhedora” presta uma tocante homenagem às mães vitimadas pelo coronavírus.

Aqui, em Diálogos Imaginários e outros escritos, somos todos nós, leitoras e leitores, mais um personagem esbarrando com Tosco Todo em alguma esquina, no ônibus, num show, no boteco do Vitão, ao telefone ou mesmo numa troca de mensagens pela internet. Quiçá realmente esteja aqui... espia só, vai que... e divirta-se!"

Nélio Silzantov

Nem e Nélio Silzantov

O livro teve uma resenha feita pelo escritor português, radicado em Vitória da Conquista, Luís Altério, da Editora Nzamba. Segue abaixo;

“Diálogos imaginários e outros escritos” de Nem Tosco Todo.

Posso afirmar que este livro é um dos mais originais que li, dos escritores da cidade, quiçá do mundo, pecando o próprio mundo ainda desconhecer este pequeno mas Belo Livro. Li-o numa manhã de sábado, só desgostando de o ter terminado tão rápido (pequeno volume).

A escrita em mãos é de uma simplicidade – diálogos concisos e enxutos – e de um realismo avesso a floreados barrocos e adjetivos chatos, que louvo e admiro. O nosso prosador é dos escritores desta envergadura de escrever o essencial, aliás, veia que tendo a seguir também nos meus escritos.... 

A escrita em mãos, portanto, não se subjuga ao mundo voraz do nosso século de Trampas de Melenas à Cuspe Javardo dos “states” e de Capitães de cloroquina cá do burgo e, ainda, de esquerdas amorfas e desnorteadas deste mundo carburado a Grande Capital.... 

Lendo aqueles pequenos diálogos, com estilo próprio, remete ao enfrentamento contra o mundo com altivez solitária como poucos... Lembra Iceberg Slim, John Fante e outros, e nos dias de hoje, Diego Morais ( de Manaus) por exemplo, como se a Dignidade fosse  o reduto a ser inegociável, e, se preciso for,  ser salva pela própria vida, para não ser somente mais um a lamber as botas frias e cínicas da Elite-Podre:

“ – Fala, Nem!

- Opa, na paz!

- Beleza. Rapaz, tem uma pergunta que queria te fazer.

- Fala aí.

- Quem é o personagem que você interpreta? É Nem Tosco Todo, ou você como cidadão comum?

- Eu faço o personagem do cidadão comum. Aquele que acorda cedo, vai trabalhar, bate ponto. Nem Todo Tosco sou eu real.

- Tipo uma dupla personalidade?

- Mais ou menos.

- E como você consegue administrar isso?

-Não consigo, é impossível!

- Ué, aí é contraditório.

- A vida é uma eterna contradição.

- Ah, legal.

- Não, isso não é legal!”

Com este diálogo, consegue encerrar toda a Filosofia sistematizada dos gregos até aos dias de hoje....  Com um simples diálogo, o escritor fez a proeza de ser um filósofo profundo, com toda aquela bagagem de cantor punk, de cidadão trabalhador, de marido e pai de uma menina encantadora: Herói como poucos! Por isso, Nem Tosco Todo tem toda a minha admiração!

Para terminar, uma lufada de Ar Fresco na Literatura contemporânea! Livre e mordaz, um livro feliz e encantador, na senda de “vagando por aí”, podermos ser ─ nós, leitores ─  livres e orgulhosos de vivermos um dia de cada vez, tal como Nem! Um acontecimento!"

                                                                                                                                            Luís Altério

Luís Altério e Nem

Outra amiga escritora, Juliana Sbrito, da Biblioteca Comunitária Donaraça, escreveu a respeito do livro de Nem;

"Levando um livro para passear

Mal saiu da mesa de lançamento, o livro "Diálogos imaginários e outros escritos", de Emanuel Moraes @nemtoscotodo (Editora Dando a Letra) já está no acervo da Biblioteca Comunitária Donaraça.

Com ilustrações de @jonjulio94 e prefácio de @neliosilzantov, o livro é um convite para uma pausa, parar tudo e mergulhar em seus diálogos diretos e sem enrolação. Nas palavras de Nélio:

"Se engana quem pensa que elaborar diálogos precisos, inteligentes, bem humorados e críticos, como os criados por Nem, é algo assim tão fácil e comum entre os ficcionistas".

Autores como Nem tornam a leitura hipnótica, pois não é possível começar e abandonar a obra sem ter concluído o mais rápido possível. Não se quer apenas ler, mas conhecer e também conversar com seus personagens e o próprio autor.

O mesmo acontece com as músicas da banda punk rock Cama de Jornal. É o que todos nós gostaríamos de dizer/cantar.

Ilustração da contracapa por JoJu. Foto por Juliana Sbrito

João Júlio, o JoJu, tem um traço único, personagens e contexto em movimento, vivos de uma maneira peculiar; envoltos por uma "poeira" que não está ali por acaso. Para saber do que estou falando, acompanhe o artista. Ele some de vez em quando, mas deixa suas provocações por aí.

Nem e JoJu

Preciso registrar também o belo trabalho gráfico de todos os livros de Nem, pois ele pensa o livro em sua totalidade. Fotógrafo, cantor e escritor independente, ele compreende que o trabalho e olhar coletivo enriquecem e ampliam a experiência estética. Nesse quesito, @thiagosuitem, do @estudioimbore, é parceiro constante. Contribuindo no livro com o projeto gráfico, editorial, capa e diagramação.

Nem e Thiago Suíten do Estudio Imboré

Até a Inteligência Artificial teve a sorte de receber indicações de como deveria ser a capa. Nem não tem medo e subverte as (des)razões de tudo e enfrenta a vida de forma punk.

Foto por Juliana Sbrito

...

Agradecemos a generosidade de Nem, sempre atento ao movimento da Donaraça.

...

Também estão disponíveis na biblioteca Donaraça os outros livros publicados pelo autor (Selo Tosco Todo):

Vagando por aí (2019)

Estamos mais do que vivos (2023)"

Juliana Sbrito

Joju, Juliana, Nem e o escritor Josué Brito


sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Coletânea traz clássicos brasileiros dos anos 70 em versão punk rock

Há muito tempo que não alimento esse blog tosco, pelos motivos mais variados e inimagináveis. Mas recebi um email com essa coletânea, e como estou de bom humor hoje (e olha que não tomei nenhuma cerveja), resolvi postar! O selo Grudda Records lançou nesta quinta-feira (23) um novo volume (ouça o primeiro volume aqui) da coletânea com versões punk rock de clássicos da música popular brasileira. Dezessete bandas independentes apresentam suas releituras para nomes como Chico Buarque, Tim Maia, Cartola, Raul Seixas, Rita Lee, Secos e Molhados, Jorge Bem Jor, As Frenéticas, Caetano Veloso, Jerry Adriani etc. Banda punk fazendo versão de bandas populares é novidade? Não. Ramones fez, Sex Pistols também! Lá fora isso já gerou coletas das mais variadas. Mas resolvi postar mesmo assim...


Segundo Felipe Medeiros, idealizador do projeto, “a coletânea tem como objetivo resgatar clássicos da música brasileira com uma roupagem voltada para o Punk Rock. É uma forma de provocar e indiretamente incentivar os fãs de rock a ouvirem compositores brasileiros que não necessariamente focam no estilo, mas que possam abrir a cabeça das pessoas para apreciar o talento e a beleza da música brasileira”. E continua. “Convidamos algumas bandas que fizeram parte do primeiro volume, e o projeto chamou atenção de outras que entraram em contato depois do lançamento dos anos 60's, por se interessarem pelo conceito criado, além de terem um estilo sonoro que segue a mesma linha. Acredito que todas as bandas fizeram um excelente trabalho e surpreenderam com muita criatividade nas suas releituras. É muito gratificante fazer um trabalho quando todos estão ativamente envolvidos para trazer o melhor resultado”, conta Medeiros.
Masterizado por Davi Pacote no Estúdio Hill Valley em Porto Alegre, “O Pop é Punk Vol 2: 70's” navega entre canções que vão desde o início da década de 70, em uma fase mais dançante, até as músicas que marcaram o duro período da Ditadura Militar, como é o caso de “Cálice”, do Chico Buarque.
Tem uma banda e ficou a fim de participar do próximo volume da coletânea? Entre em contato com a Grudda Records:
Ouça a coletânea e confira a lista completa das músicas e bandas participantes:
 
1. Intro
2. Davi Pacote - Cálice (Chico Buarque)
3. Rangones - Chocolate (Tim Maia)
4. Eu Primeiro - Sangue Latino (Secos e Molhados)
5. Estragonoff - Dancing - Days (As Frenéticas)
6. Maria Nicotina - Doce Doce Amor (Jerry Adriani)
7. Rooster - O Meu Mundo E Nada Mais (Guilherme Arantes)
8. Atox - Cuidado Com O Bulldog (Jorge Ben Jor)
9. F. Snipes - Senhora Tentação (Cartola)
10. Emersson Ramone - Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás (Raul Seixas)
11. Rosa Tigre - Não me venda grilos (Odair José)
12. Os Horácios - Agora só falta você (Rita/ Tutti-Frutti)
13. Guilherme Leal - Porquê Você Já Não Me Mata De Uma Vez (Reginaldo Rossi)
14. Macão - Se ainda existe amor (Balthazar)
15. Janelles - Papai Me Empresta O Carro (Rita Lee)
16. Texugos - London, London (Caetano Veloso)
17. Os Ildefonsos - Música Lenta (Lilian)
18. Os ToRto - Será Que Eu Vou Virar Bolor (Arnaldo Baptista)

sábado, 3 de junho de 2023

Quem é Nem Tosco Todo?

Escritor/Compositor/Músico

Nascido em Vitória da Conquista, Bahia, Emanuel Moraes, conhecido como Nem Tosco Todo é vocalista da banda de punk rock Cama de Jornal e tem um projeto paralelo chamado Nem Tosco Todo e as Crianças Sem Futuro.
E foi através da sua história e da Cama de Jornal, que surgiu a ideia de escrever seu primeiro livro, a autobiografia "Vagando por aí", lançada em 2019.
Passando pela infância do autor até os mais de 20 anos de estrada com a sua banda Cama de Jornal, “Vagando por aí” retrata ainda a história por tras das gravações dos discos, DVDs e turnês realizadas pelo Brasil.
Em 2023 o autor lança seu segundo livro, um romance ficcional chamado “Estamos mais do que vivos”.
No momento, Nem Tosco Todo tenta finalizar seu terceiro livro, intitulado “Diálogos Imaginários”.
Inquieto, o autor tentou estudar Bacharelado em Fotografia na Faculdade Senac de São Paulo. Posteriormente iniciou em Vitória da Conquista a faculdade de Letras, pela UESB, mas ambos os cursos foram abandonados por motivos variados.
Nem também mantinha um blog de entrevistas, um programa de rádio e um selo independente de divulgação de bandas do subterrâneo.
E depois de gravar mais de 80 canções autorais ou em parceria, Nem agora tem se dedicado mais a literatura.
Vagando por aí
Nem Tosco Todo
352 págs.
2019

Estamos mais do que vivos
Nem Tosco Todo
92 págs.
2023



terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Coletânea reúne 100 bandas da América Latina

Capa da Coletânea América Latina
Estou sem postar aqui tem bastante tempo, por motivos que não vem ao caso, e com algumas pendencias pra publicar. Mas hoje saiu essa coletânea e não poderia deixar de divulgá-la aqui. Acaba de ser lançada pelo selo baiano Tocaia a Coletânea "América Latina", que reúne 100 bandas de punk rock, hardcore, crossover, dentre outros estilos. Organizada por Jone Luiz, guitarrista da banda Jacau e idealizador do selo, o Tocaia vem produzido bastante materiais entre CDs e Coletâneas, e criou também, de forma autônoma sua própria plataforma digital de música, que você pode conhecer clicando aqui!
Nessa coletânea são 100 bandas de 17 países e está disponível, além da versão digital na própria plataforma do Selo Tocaia, em CD e em uma camiseta com a imagem da capa do disco, que foi produzida por Adilson Lima.
Para adquirir, entrar em contato direto com o selo:
ouça no link: 

Bandas participantes:
Brasil
01 -288 - O Horror
02- Afago - Tout le monde déteste la police
03- Agressivos -Anti Social
04 - Antiporcos – Proletários
05 - Antiprofeta - Eu Desconheço
06 - Aphorism – Penumbra
07 - Äplästär - No Hope
08 - Cama de Jornal -O Álcool me Persegue
09 - Depois do Inferno - Depois do Inferno
10 - Erasy - A Motivational Message
11- Holocausto R.C - Resistindo ao Caos
12 - Injuria - Somos Todos Iguais
13 - Jacau - Terra do Ódio
14 - Kalmia – Desespero
15 - Kbrunco – Tato
16 - Lemmy Saves - Stoner Days
17 - Malaco Véio –Rebelião
18 - Maligna - Cavalo do Cão
19 - Motim 13 – Caos
20 - Orelha Seca - O Atalho a Mentira e a Morte
21 - Pastel De Miolos - Página 81
22- Pecados Capitais Oficial - Trabalhar até Morrer
23 - Suffocation Of Soul -Dead Paradise
24 - Thrashard - Pau de Bosta
25 - Unkilled Thrash - Silent War
26 - Violência Cega - Horror&Punk
El Salvador
27- Distrüst - We Arise
Cuba
28 - Eztafilokoko - Un Grito de Lucha Obrera
Mexico
29 - Mictlan Sxp - Ultima Faena
30 - La Plasta - Los Lavanderos
31 - Asko Mutuo - Estúpido Malinchista
Nicarágua
32 - Rexurgir – Roma
33 - Oxotopa - No Creas en el Tirano
34 - Bastardos Sin Gloria - Propitus esto Matri Terrae
Venezuela
35 - Accio Directa - Animal Radical
36 - Lakrosos Malamañosos - Puta Rutina
Bolivia
37 - Turiros - Punk Rock Attack 
Chile
38 - Losmas Vivos - Espejos Negros
39 - The Chakets Band- Infeliz
40 - Steven Seagal -Majin Boo
41 - Matahero –Ensamble
42 - Estado Grave - Redistiendo
Peru
43 - Tragokorto - Sin Decir Adiós
44- Condicion Inhumana - No mas Racismo
45 - Maestro Canibal - Arma de Destruccion Masiva
46 - Demencia - Progreso o Retreceso
Argentina
47 - Asfixiados – Thrashpunk
48 - Apatia Apesta - Orden Militar
49 - Anemia - Hablando Conmigo Mismo
50 - Altura Maxima- Nuestra Luna Gris
51 - Ausencia Cerebral - Corazones Rotos
52 -13 Puñaladas - Consumo Respeto
53 - C14 - Nadie Espera
54 - Cascotazo – Default
55 - CDC - Igual no Sos Feliz
56 - Chakota - Cuate no
57 - Cualkieraa – Regeneración
58 - Diskordia Punk Rock - Caigo y Muero
59 - El Ultimo Dia – Gritar
60 - Fak - Harry el Sucio
61 - For Old Times - Golpe a Golpe
62 - Garrafa Social - Mundo En Caos
63 - Inadaptados - El Funebrero
64 - Inquietxs - Libertades Perdidas
65 - La Carroña - La Sequia
66 - Las Kabras - Me Crié en las Calles
67 - Offside - Aviones
68 - Perros De Marte – Destrozado
69 - Rewinders – Oscuridad
70 - Tercer Ciclo – Conducta
71 - Uglys – Conexión
72 - Vortice - Lo Que mas Me Gusta
73 - Ysteria – Vencer
74 - Yukaha - Bombas de Ódio
Honduras
75 - Desmembramiento - Prisión Verde
76 - Sor Tiniebla - P.M (Pura Mierda)
77 - Hollow Kingdom - Fracasos
Colômbia
78 - Anger Blast - Rabia Miedo Ira
79 - Tinnitus - La Vigilância
80 - Anarka Libertaria - Colombia
81 - Mal Aguero - La Linea Final
82 - Extrema Reincidencia - La Sangre
83 - M60 - Dios de la Guerra
84 - Geminis Reloaded - Su Libertad
Equador
85 - Ratas de Ciudad - Cementerio
86 - Notoken - Viva la Revolucion
87 - Tony Montana - Tu Juego
88 - Radio Pezuña - Inocente Humanidad
Panamá
89 - Factor Viii - Por Nuestros Propios Hermanos
90 - Estado De Sitio - Todos Contra Todos
Paraguai
91 - Vartan - Rechazo
92 - The Kapper's - Profeta
93 - Tolerancia Cero - Predador Cazado
Porto Rico
94 - Golpe Justo - A Palo Limpio
95 - Mundo Roto – Parasitados
96 - Lopo Drido - La Peste de Tu Existir
Uruguai
97 - Puntano - 500 Engaños
98 - La Última Semana - Estado Violento
99 - Cadenazzo –Control
100 - Insectas - Boom

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Entrevista com Fofão da Besthöven

Muito se fala sobre como sobreviver no underground, sendo você mesmo! Outras coisas que ouço muito por aí é gente reclamando que o punk morreu, que ninguém valoriza as bandas, que não se vende mais discos, e mais uma pá de idéia errada. Então se você não é apenas mais um reclamão, se liga nesse papo que tive com Robson Felipe, mas conhecido como Fofão, da clássica banda Besthöven, diretamente da cidade do Gama no Distrito Federal! O papo passou por som, discos, zines, livros e mais! Se ligue!

Vamos começar falando dos seus livros. O primeiro que lançou (me corrija se estiver errado) foi o "Besthöven-The Discography Book", que como o título já entrega, é sobre a discografia da sua banda. De onde veio a idéia de fazer essa publicação? 
Fofão - Sim, você está certo, este foi o primeiro livro. Na verdade, já tem um tempão que venho pensando em escrever um livro sobre a banda, porém são tantas coisas pra colocar no livro, tantas histórias, que seria difícil resumir tudo, e também, eu não queria fazer um livro gigante, com trocentas páginas, e acabar ficando cansativo para ler e tals... 
Daí o meu amigo Ulixo, me deu a ideia de fazer um livro apenas sobre a discografia, o que eu abracei logo de cara, pois essa ideia foi ducaralho, e me deu uma outra visão também, ou seja, eu posso publicar mais de um livro, e dividir por temas específicos cada um, sem precisar fazer um livro gigante! Resolvi começar com a discografia, como o Ulixo havia sugerido, e agora tem espaço e tempo para desenvolver outros. 
Besthöven-The Discography Book
Não é uma biografia, é falando sobre os discos e como foram gravados? 
Fofão - Sim, inicialmente eu estava pensando em uma biografia, mas como disse antes, são 30 anos de histórias e muitas correrias, e então são muitas coisas para contar... 
Este livro é como uma enciclopédia dos lançamentos da banda, ou como um catálogo saca? Eu incluí todas as artes, capas, encartes, etc. E falo um pouco sobre cada um, disco por disco, como foi lançado, em que país foi lançado, em que formato (tape, vinil, CD), quais selos lançaram, como pintaram e quem fez os convites. Conto alguns detalhes e histórias também, como o dia da gravação de tal disco em 2002, quando estávamos sem grana, e eu mais um amigo que fazia segunda guitarra comigo, levamos todos os instrumentos, incluindo a bateria completa, para um estúdio em carrinhos de supermercados, embaixo de um sol fodido! Sempre na garra, no foda-se e no faça você mesmo, sem tempo ruim... 
Falo também como algumas músicas foram compostas, de onde veio a inspiração, como por exemplo, a música Midnight and Ten “Meia-Noite e Dez”, gravada em 2004, e que na verdade faz referência ao número de uma viatura da policia que, na época, tocava o terror em nossa city e que batia nos meus amigos. 
Então revelo detalhes e algumas histórias dos “bastidores”, que até então muita gente não sabia ainda. E fiz questão de eu mesmo escrever, montar, produzir e publicar meus próprios livros, pois sou eu quem se lembra de todas essas histórias, principalmente porque 90 por cento dos discos foram gravados por mim mesmo, tocando tudo sozinho, às vezes trancado por 10 horas seguidas em um estúdio, fazendo tudo, né meu... 
E gosto de fazer tudo sozinho, sou autodidata, aprendo a errar sozinho! 

Esse primeiro livro você fez 200 exemplares, né? Já esgotou, vai produzir mais? Como tem sido a receptividade para um livro nesse formato? 
Fofão - Sim, foram apenas 200 cópias e, cara, não penso em fazer mais, pelo menos agora não. Prefiro lançar outros novos, e gostei desta tiragem de 200 porque vende muito rápido, você não fica com aquele monte de livros estacionado na sua casa, pois além de produzir os livros, sou eu mesmo quem os vende e quem os envia pro Brasil e para outros países também. Mas sinceramente não sei, talvez possa relançar no futuro, há sempre a chance de relançar com algum selo amigo do exterior também, mas pelo menos por agora, eu não penso em relançar ele não. 
Quanto à receptividade, devo dizer que estou realmente surpreso! Eu imaginei que venderia bem, pois meus materiais sempre vendem bem, tem muita gente legal no Brasil que sempre compra meus materiais, às vezes eu anuncio um EP novo que acabou de chegar, tipo 50 cópias, e às vezes vendo tudo em 30 minutos, uma hora! Porra, é super bacana isso tudo! Tem uma galera foda, que sempre apoia os meus trampos, e isso dá uma força a mais dentro da gente, saca né, meu? Porra, sem palavras. E com os livros foi a mesma coisa...eu cheguei a ir ao correio 3 vezes em uma semana, com dezenas de pacotes de livros, meu plano era ir uma vez por semana, devido à pandemia, mas os pedidos foram tantos, e eu não queria acumular nada. E outra coisa, eu sou meio neurótico, geralmente quando a pessoa compra um material comigo, eu já dou um jeito de enviar no dia seguinte! Não gosto de enrolar e não enrolo nunca, até mesmo porque eu sei, quando a gente compra um material, a gente quer receber logo, né meu...Teve dias que eu cheguei à ir para o correio de Uber! Devido o enorme volume de pacotes...geralmente vou de bicicleta! 
O segundo livro só me resta algumas poucas cópias, e o terceiro tá vendendo legalzaço também. 

Antes da gente falar sobre os outros livros, queria que você falasse como e quando começou seu envolvimento com o punk rock? 
Fofão - Cara, a parada comigo começou quando eu era uma criança ainda, criancinha, por volta de 1984, éramos realmente pirralhos, porém já víamos e vivíamos um pouco dos anos 80 em seu fervor, mesmo que de longe, mesmo que absorvendo só as migalhas daquilo tudo, até mesmo por não termos idade suficiente para irmos a um show. Mas minha geração, meus amigos, começamos a nos envolver com quadrinhos, e com cinema, ainda muito jovens, daí veio o caminho livre para nós começarmos a conhecer o rock! Colecionando fitas k7s de bandas de rock brasileiros que a gente gravava da rádio, depois colecionando recortes de jornais e revistas com bandas de rock. E através de entrevistas de bandas de rock tipo Ira!, Camisa de Vênus, entre outras é que fomos ver os caras citando bandas como Stooges, Ramones, etc.... daí começamos a descobrir o Punk, o Metal e o Gótico. Por volta de 89 eu já andava de visual, pintava camisetas à mão, e montei minha primeira banda também. 
Fofão em ação!
E a Besthöven, surgiu quando? Foi a sua primeira banda? 
Fofão - A Besthöven é do finalzinho de 1990, e em 91 que tomou forma realmente...e não é minha primeira banda. Minha primeira banda foi formada em 1989, e se chamava Aborto Podre. Eu era guitarrista e a gente tocava Grind, bruto e curto, na linha de bandas como Necrobutcher, Dissector e Sore Throat, que eram nossas maiores influências! Eu toquei com eles até 1990, ou seja, um ano, e depois fui formar a Besthöven com outros amigos, mas a Aborto Podre seguiu tocando com outro guitarra até 1993! O baixista desta banda ainda é meu amigo até hoje, 30 anos depois e ainda mora perto daqui também! 

Sempre foi você que gravou tudo nos discos? E nos shows, como funciona isso? 
Fofão - Cara, é como se a banda tivesse tido duas fases saca? De 1990 até 1994 era uma banda “normal”, com quatro integrantes, Às vezes com 3, às vezes com 2, era meio bagunçado pra falar a verdade, também éramos praticamente crianças ainda, aprendendo, quebrando a cabeça...tanto que nem temos uma demo decente desse período. 
Daí no final de 1994, eu fiquei sozinho com a banda e resolvi não montar mais ela como uma banda normal. E comecei a gravar sozinho em 95. 
Na verdade, eu aprendi a tocar tudo sozinho, todos os instrumentos, e sempre tive a ideia de, um dia, poder fazer uma banda ou projeto, tocando tudo sozinho. 
Então em 1994 pra 95, eu pensei bem e acabei misturando esses dois “sonhos”, e então a Besthöven passou a ser uma banda de “um homem só” saca? E tem sido assim até hoje. 
E isso foi muito bom, pois concretizei uma banda mais forte, e porra meu, chego a fazer muito mais que uma banda normal, por muitas vezes. Falo isso com humildade, espero que me compreendam, mas porra, consigo lançar mais discos e compor mais músicas e tal, do que se eu tivesse trabalhando com uma banda normal, e com “banda normal” eu quero dizer que eu teria que esperar opiniões, ficar puto com cara que fura ensaio, entre outras coisas chatas pra caralho que só estressam e desanimam. 
De 95 em diante, eu gravo tudo sozinho, mas em alguns poucos discos há também alguém gravando comigo, por exemplo, o EP de 2002 com 5 sons, “more victims of war”, tem meu amigo Leandro Hardcore na segunda guita, e eu tocando todo o resto; vozes, guita, baixo e batera, fizemos alguns shows só nós 2 também na época, eu bateria e voz e ele guita e sem baixo! 
Tem um EP de 1999 com 6 sons, que tem dois brothers tocando comigo na gravação, eu guita e voz, Bruno-baixo, e Robson-bateria(esse grande amigo montou a besthöven comigo em 1990, e até hoje é meu amigo e irmão!!! Puta sangue bom! Puta brother!) mas no geral, 90 ou 95 por cento dos discos eu gravei tudo sozinho. 
Quanto a shows, é o seguinte; eu monto formações temporárias, que eu chamo de “s.o.s. line up”. Convido alguns músicos temporários, faço um set, e ensaiamos para tocar um determinado número de shows, depois disso o line up acaba, e volto a meu mundo de gravações sozinho. 
S.O.S. Line Up 2018
Às vezes monto com gente daqui do DF e, às vezes, dependendo de onde seja o show, eu monto com gente de outro estado ou país, sendo que já levei gente daqui pra tocar em outros estados também, as vezes levo a banda completa daqui, ou levo um baixista daqui e uso um baterista de são Paulo, por exemplo. Enfim, as possibilidades são infindáveis! 
E isso é muito legal também de estar fazendo, para mim, essa parada de gravar só e fazer essas formações temporárias é foda pra caralho, é muito bom. Na verdade, uma das melhores coisas que inventei, meu! Posso inclusive fazer baixo e voz, ou fazer apenas voz nos shows, ou às vezes quando monto o line up com duas guitarras, eu posso largar minha guitarra no meio do show, e fazer uma parte do show apenas cantando/gritando. 

De lá pra cá, quantos discos do Besthöven já foram lançados? 
Fofão - Puta meu, eu realmente não sei. No meu livro você vai ver mais ou menos uns 100 lançamentos da banda, porém temos que detalhar bem e ver direito, pois eu nunca contei!! 
O que quero dizer é; alguns discos foram lançados em duas versões diferentes, ao mesmo tempo, como o EP de 2003 “Just Another Warsong”, que saiu nos EUA e na Dinamarca, com capas e encartes diferentes, então são “dois lançamentos”, porém é o mesmo disco, então posso dizer que é “um disco só” entende? 
Sei lá, de repente uns 100 lançamentos e uns 50 ou 60 ou 70 discos ao todo? Eu realmente não sei... 
Por exemplo, tenho um álbum de 2009; “Seeking Shelter in the Darkness of War”, que foi lançado originalmente em vinil/LP no Canadá, então relançado como tape em UK, e depois relançado como CD na Rússia, e novamente lançado numa versão em CD no Brasil (junto com outras coisas), ou seja, são quatro lançamentos em formatos diferentes, porém é um disco só! 
E no livro eu coloquei um por um, para poder contar os detalhes e diferenças de cada um, saca? Então não sei quantos ao todo são realmente, mas posso dizer que são muitos! Ou como dizemos por aqui; é disco pra caraio, mano!! haha 
Clique na imagem acima para ouvir Besthöven
Saiu também em muitos splits com outras bandas, né, inclusive no exterior? 
Fofão - Sim, meu primeiro split oficial saiu em fita k7 com os finlandeses da Força Macabra em 1998, e nesta época eu já havia lançado sons em um compilação em vinil EP na Finlândia também, 3 sons em um LP duplo com várias bandas do mundo todo, lançado no Japão, e na sequência gravei meu primeiro EP individual no ano seguinte. 
A partir de 1995, eu intensifiquei fodidamente meus contatos no exterior, entrevistando bandas pra meu zine, trocando materiais de bandas daqui por bandas de lá, e o esquema de splits não parou nunca mais, tudo na base da amizade real e underground. Você começa a ter contato com uma banda que você é fã, daqui a pouco a banda tá no meu zine, e minha banda sai no zine do cara, e então estamos agitando um split, compondo pra lançar um trampo junto, etc. É uma experiência muito legal, gosto muito de fazer splits mano!! 
Agora mesmo tem um split EP novo da Besthöven , que está na fábrica, na França! Com a banda DHK do Perú! Que é uma puta banda foda de D-beat cantando em espanhol, e os caras são muito sangue bom também! O guitarrista deles, inclusive, foi meu baterista nos meus shows pelo Perú em 2019!
Besthöven no Perú em 2019 com Burro da DHK
Então não é somente lançar um split por lançar saca? Meus splits tem uma história, cada um deles tem uma história, que envolve amizade e vivência, não é só musica. E outra coisa que faço questão, é de sempre compor coisa nova, e fazer com que os splits sejam únicos, com músicas exclusivas, que representam determinados momentos. Atualmente tô dando um tempo nos splits, pois estou trabalhando em novas composições, desta vez para produzir um LP novo. 

Por falar no exterior, você também já fez turnês fora do Brasil. Fale um pouco sobre esses rolés que você já deu aí pelo mundo e quais países já passou; 
Fofão - Sim, sim, já dei alguns rolês e tenho alguns outros em vista para depois que essa triste situação de pandemia acabar, inclusive este ano iríamos tocar no México no grande festival Punkytud, em Maio, mas foi adiado por tempo indeterminado devido à pandemia. Esse será maravilhoso de ir, pois tenho muitos e muitos amigos e amigas lá pra trombar, já lanço materiais por lá há anos também, tenho saído em zines de amigos lá, este ano tocaríamos com bandas fodas também, por exemplo, a Hiatus da Bélgica, que é uma banda que ouço desde 95, 96, e também a Disease da Macedônia, por exemplo, a Disease nós temos algumas histórias junto já e seria ótimo tocar com eles! Temos um split EP juntos, e também eu escrevi uma letra para um som deles que saiu em um split LP deles com a banda Earth Crust Displacement, o vocalista da Disease também faz um zine enorme, e fez uma edição especial da Besthöven com 42 páginas, com uma entrevista enorme, que conta desde meus primeiros dias de vida praticamente...hehehe...então há muitas coisas legais quando saio para tocar, vou tocar pra quem gosta do meu trampo, pra quem compra meus discos, para os meus amigos, saca? Estou sempre em boas mãos e encontrando pessoas maravilhosas, além dos shows que são foda, claro!! E as histórias que são fodas também! Bem além da música, há também a vivência!! 
Além do Perú, toquei por vários países da Europa como Itália, Eslovênia, Eslováquia, Polônia, Suécia, Finlândia, Alemanha, Espanha, País Basco, Holanda, Dinamarca, França, Áustria, República Tcheca, Bélgica & Suiça! E ainda tenho muitos lugares que quero ir, depois dessa triste pandemia. 
Besthöven na Alemanha
Qual a maior diferença que você percebeu entre a cena brasileira e a de outros países? 
Fofão - Cara, essa é difícil de dizer, porque eu creio que cada lugar é um lugar, e cada lugar é diferente do outro. Acho que a cena do DF é diferente da cena de Goiânia, que também é diferente da cena do Rio Grande do Sul que é diferente da cena de São Paulo. Então penso o mesmo em relação às cenas de outros países, cada país tem suas facilidades e seus problemas também né, meu. Depende muito de como as pessoas envolvidas trabalham, e como elas conseguem desenvolver isto tudo, e também como as pessoas reagem. 
É legal você organizar um show, e ver que o show deu bom, ver que as bandas estão felizes de estarem tocando ali, ver que o público curtiu a noite e que curtiu as bandas e tal. E dentro disso acho que cada um tem que trabalhar com o que tem mesmo, saca? 
Toquei em um festival na Suiça pra sei lá quantas mil pessoas e foi ótimo! Porém já toquei em Goiânia pra sei lá, 100 pessoas, e foi ótimo também!!! 
Fofão na Holanda acompanhado de músicos italianos
No exterior há a vantagem das cenas serem realmente grandes, geralmente são muitas pessoas, e estas pessoas todas estão envolvidas. O cara da banda tal faz zine também, o cara da banda tal tem um selo e lança bandas, o cara da banda tal vai tocar hoje, porém tá trabalhando na portaria, etc. E o público lá também é do mesmo jeito, fulano tem banda mas não vai tocar hoje, porém tá lá no show curtindo as outras bandas. 
O pessoal também apoia as bandas de uma forma incrível, eles chegam na sua banca de merch e compram tudo, discos, camisetas patches, adesivos, e etc. Isso é muito bom, principalmente para quem está de tour e ainda tem vários dias na estrada, é uma grana que você vai usar ali na frente pra comprar rango, uma água, etc. Há também pubs e Squats que trabalham o mês inteiro sem parar, com eventos em TODAS as noites, além de música, com exposições, teatro, oficinas, etc. 
No Perú eu vi as pessoas trabalhando como um verdadeiro coletivo, algo como dez amigos trabalhando para organizar os shows, de bandas diferentes, de estilos diferentes. E eu tive o imenso prazer de tocar em shows com bandas magnificas e de estilos também diferentes, tocamos com bandas de Punk Rock, Hardcore, Crust, D-beat e Grind no mesmo palco, e porra, isso é bom pra caralho, meu. 
Besthöven ao vivo na França
Voltando a falar de discos, eu recebi esses dias através de uma troca com um amigo de Goiânia, da página do facebook brazilian hardcore discography, dois CDs de projetos seus; o primeiro tem o nome indecifrável de "Svartfaglars Begravning". Até o google tradutor ficou doido quando digitei isso lá. De onde você tirou esse nome para esse seu projeto? E qual o estilo de som?
Fofão - O nome Svartfaglars Begravning é em sueco, e é da Suécia a maioria das bandas que eu amo e a maior parte de minhas influências também, então o nome é uma referência e uma homenagem também aos amigos e bandas daquele país, o nome significa algo como “O Funeral dos Pássaros Negros”, e eu retirei esse nome de um poema que eu mesmo escrevi, quando eu estava compondo as primeiras letras e poemas para este projeto, e dois amigos de lá, me ajudaram a traduzir o nome para o sueco corretamente também. 
Quanto à sonoridade da Svartfaglars, a base principal é Punk, porém eu incorporo outras influências de estilos que eu também curto e ouço, então é Metal e Gótico também. Eu chamo de Gothic Metal Punk. 
Além dos sons próprios, eu também gosto de gravar alguns covers com esse projeto também às vezes. Já gravei covers da Massacre(Finlândia), Upright Citizens(Alemanha), e entre outros gravei um som da Christian Death também, que é uma banda de Gothic Rock que eu curto muito. Na verdade o Post-Punk e o Gótico sempre me agradaram, inclusive eu já toquei em bandas aqui de Gothic rock e post-punk também como; 
Lupercais - de 1995 até 1998, onde eu era guitarra, mas desenvolvia outras coisas também, como backing vox, violão, teclados. 
Vultos- de 2000 até 2005, onde eu era guitarra e voz... 
E tive um projeto mais recente de nome Colder Than Us, ou “Mais frio que nós”. 
Porém a Svartfaglars vai além do gothic rock, incluindo outras vertentes. Há um cd piratex com 30 sons de 2017 até 2019 pra quem tiver afim de pegar ou você pode ouvir e baixar grátis no bandcamp da banda; https://svartfaglarsbegravning.bandcamp.com/
Há também um EP em vinil com 6 sons lançado na Alemanha que ainda me resta algumas poucas cópias, caso alguém esteja afim! 
E um tape de 60 minutos lançado pelo selo Dor Presente gravações de São Paulo! 
Estou trampando no novo álbum deste projeto que se chama “In League With Darkness”. Esse novo álbum tem um diferencial, onde eu estou musicando poemas de vários amigos do Brasil em cada som! Terá também uma arte na contracapa de uma amiga do Chile! Ou seja, este álbum novo é realmente uma “liga com a escuridão”. E é um projeto que tô curtindo muito de estar fazendo! Eu ainda utilizo alguns instrumentos “diferentes” como; violão, violino, teclado, e o que mais me der na telha. 

O outro CD que eu recebi nessa troca foi o do "Massacre Divine". Nesse projeto aí você já tem outras pessoas te acompanhando, formando a banda. De onde vem tanta vontade de fazer som assim, com vários projetos diferentes? 
Fofão - A Massacre Divine foi um projeto que fiz com um amigo do Canadá, eu gravei minhas partes aqui= baixo e vox e ele gravou as partes dele no Canadá= guitarras e bateria. Ele fez as músicas e eu fiz as letras. 
Lançamos um EP/vinil na Suécia e Espanha, e também uma versão em fita k7 na Rússia. 
Fizemos um segundo EP ainda, que saiu em fita k7 na Rússia também, e fizemos diferente; ele montou a banda com 3 amigos do Canadá, gravaram os sons, eu fiz somente as letras e gravei a voz. Mas este projeto já acabou. 
Eu ainda quero fazer outros projetos como este, gravando com amigos de outros países, pois a experiência é foda demais! 
Porra, agora de onde vem essa vontade toda? Mano, música é minha vida, eu realmente sou viciado em música, eu ouço música o tempo todo, ando com fones de ouvido ouvindo som em mp3 ou fitas k7 no meu walkman enquanto estou pedalando. Ouço música pra tudo na verdade, agora mesmo estou ouvindo uma banda do Japão de nome Chaos Channel, que curto pra caralho!!! Enquanto respondo esta entrevista! E daqui a pouco quando for jantar uma pizza vegana, já estou pensando em ouvir o primeiro LP da Bathory ao mesmo tempo. E hoje eu tenho um estúdio também!! O que facilitou muito minha vida!!! hehehe 

Aí vamos voltar a falar dos livros, você lançou recentemente mais dois livros. O primeiro (me corrija se estiver errado) é uma coleção de publicações que você escrevia no seu zine Vermynoze Pütrida. O outro, uma coleção de fotos de bandas que você acompanhou ou publicou no zine. Esses dois eu ganhei de presente do amigo Grilo, punk aí do DF. A ideia é fazer tipo uma enciclopédia, já que todos os três livros lançados tem o mesmo formato físico? Vem mais livros por aí? 
Fofão - Porra, fico feliz que o brotherzão Grilo tenha levado os livros pra ti aí!! 
E sim, você tá certo, a ordem é esta mesmo! Porém devo dizer que cada livro é independente um do outro, você pode comprar só um e ler ele tranquilamente e não é preciso ter o outro pra complementar saca? 
Embora quem pegar todos, vai ter no final uma coleçãozinha bacana!! Hehehe, já que eles seguem o mesmo formato, são todos de capa dura, e até mesmo a quantidade de pages é bem igual. O da Besthöven discography tem 220 pages, o Vermynoze Total Paper tem 200 pages e o Vermynoze Photobook tem 220 pages também. 
No final das contas, o segundo do zine Vermynoze acaba por complementar o primeiro sim, em várias coisas, porém continuam independentes... 
E sim, meu, tem um livro novo em ponto de bala!! Mas por enquanto é segredo!! Mas já tá quase pronto e indo para a fábrica em alguns dias apenas. 
Eu particularmente achei muito interessante esse seu pensamento, citando em um dos livros, de que é preciso registrar a cena historicamente, seja em um livro ou em um zine. Sem esses registros, muita coisa se perde, infelizmente. E no livro sobre o Vermynoze Pütrida, tem uma banda daqui de Conquista, chamada ÑRÜ. Como funcionava naquela época esses contatos, lá pelo final dos anos 80, começo dos 90? Era tudo carta, né? Galera de hoje não tem noção como era, fala aí; 
Fofão - Pois é, meu, eu vivi tantas coisas legais, vi tantas bandas bacanas acabarem sem nunca terem gravado nada, e vi tantas bandas legais do brasil que só gravaram tapes, algumas com tiragens bem pequenas na época, acho que tanta coisa boa ficou perdido no passado, saca? Com sorte, desde pequeno, que eu tenho esse pensamento quase de “arquivista” e consegui com o passar dos anos, poder estar lançando esses livros, e fazendo assim, com que parte desta história continue viva, saca? 
Ainda tenho muitos originais do meu zine que fiz em 1990, 91, 92...e muitos materiais daquela época também, sem contar que eu mesmo fotografei muitas destas bandas nos roles que fiz, para o phototobook mesmo, eu tive que fazer uma seleção, e ainda tenho muitas fotos aqui, talvez faça um photobook parte dois, não sei... enfim... 
Eu estava me lembrando, anos atrás quando vi pela primeira vez o excelente documentário Botinada! E um cara diz algo como; “a biblioteca Punk brasileira cabe em uma mão”, e porra, aquilo ali foi muito deprê de contemplar, e pensar que uma cena tão grande e com tanta gente legal, e com tanta história pra contar, esteja tão mal documentada de um modo geral saca? Bom, eu quero dizer ANTES!! Porque hoje já há uma galera produzindo bem mais neste sentido, saca? 
Há documentários legais pela web, há gente lançando livros também, como o "United Forces", por exemplo, do meu amigo Marcelo R Batista. O United Forces foi um grande incentivo para eu fazer os meus livros, eu já vinha com esta ideia de fazer um livro com os arquivos de meu velho zine, e quando vi a primeira vez o trailer do livro do Marcelo, eu fiquei louco de alegria! E acho que fui um dos primeiros a comprar aquele livro magnifico! 
Mais tarde, com a parceria com o amigo Ulixo e o selo dele e o meu, conseguimos então lançar estes três livros. 
Recentemente foi lançado um livro com a história do Punk na Paraíba também! Lançado pelo amigo Solano Alves, que se chama ; “Três acordes, Algumas ideias e Várias bandas”, que eu tô afim de pegar também!! E tem o seu também, que eu quero pegar também!!! 
Quanto ao esquema das cartas, pois é meu, até 1995 foi assim né? Às vezes mandava uma entrevista para uma banda de outro estado e tinha que esperar, três semanas, um mês para receber as respostas, muitas respondidas à mão também, que você ainda tinha que datilografar para poder editar no zine, entre xerox às vezes boas, às vezes ruins, mas tudo funcionava muito bem!! E fazia parte dessa correria toda. 
Na minha opinião, toda esta dificuldade de se conseguir as coisas, até mesmo as vezes para se conseguir um som novo, um zine novo, uma foto de uma banda, acabou por criar pessoas muito fortes, pois esta dificuldade toda trazia também algo quase que como uma “recompensa”, né? É como se o pessoal do passado tivesse uma história para cada disco que ele conseguiu na época, pois ele saberia dizer a dificuldade que passou pra levantar a grana pra comprar o disco, ou como comprou ou ainda, onde comprou, até mesmo porque as distros eram bem poucas também. 
Havia o esquema de “batizar” os selos também, onde a galera passava cola branca em cima dos selos das cartas, e então o carimbo do correio ficava na cola, e quando chegava a carta na sua casa, você colocava o envelope de molho e podia reaproveitar os selos em outra carta... 
as pessoas, naquela época, viviam com várias dificuldades para se conseguir material e informação e mesmo assim, se construía uma cena forte pra caralho. 
E era bem legal pra falar a verdade, se você tivesse bastante contatos, então tinha sempre cartas chegando, materiais, se você conseguisse responder todo mundo também de forma rápida. Infelizmente, às vezes, batia a falta de grana também, e não era sempre que se conseguia responder todo mundo. Mas a troca de materiais e informações eram feitas todas via correio, as compras de materiais também, os primeiros discos importados que chegavam nas primeiras distros. 

Só pra acrescentar aqui sobre a Ñ.R.Ü e sua importância na cena aqui da nossa cidade, todos os discos de bandas de punk rock locais, dos anos 2000 pra cá, foram gravados no estúdio de Ruckson, vocalista da Ñ.R.Ü. O primeiro CD da Renegados HC, da Princípio Ativo. Da Cama de Jornal ele gravou todos, inclusive os 2 principais discos ao vivo da gente. Uma pena que bandas como a Ñ.R.Ü tenha encerrado as atividades. No livro você fala sobre os endereços das bandas nos zines antigos não serem mais os mesmos, no caso da Ñ.R.Ü, pode mandar material que ele ainda mora lá! 
Fofão - Putz, que da hora ouvir isso meu! Ñ.R.Ü era uma banda muito foda! Um som único e super original também, gosto das letras também, e do jeito do vocal cantar, diferente e debochado também, era uma banda foda! 
Ñ.R.Ü no livro "Vermynoze Total Paper"
A questão da nota sobre os endereços no zine, mano, é que ali tem endereços de 25, 30 anos atrás, então para garantir, coloquei aquela nota, até mesmo porque fiz questão de manter os endereços no livro, para que as pessoas pudessem ver de quais localidades as bandas eram, de qual cidade, qual estado, etc... 
Além da Ñ.R.Ü, há também a Acephalos da Bahia, e pra mim, a cena da Bahia sempre teve bandas excelentes! Outras duas bandas da Bahia que eu acho foda são a Proliferação, e também a Subversivos (que era de Alagoinhas), e eu ainda tenho essas bandas em fitas k7. 
No segundo livro do zine, ou seja o Photobook, da Bahia, há fotos das bandas NÃO, que eu tirei em 1990 no encontro Punk em Belo Horizonte, e eu ainda era “de menor”...hehehe...e também uma foto da Antropofobia, que eu tirei em 1995 no encontro Punk no Rio de Janeiro. Há também uma foto da banda Disacusia, de 1998, que era de dois amigos meus; o Bugiganga da Bahia e o Bate Gute da Paraíba! 
Bahia sempre teve bandas fodas e expressivas pra caraio!! 

Bom, falei mais que perguntei aí acima, mas agora eu gostaria de saber o que você pensa sobre os punks lá dos anos 80/90 que viraram crente ou conservadores escrotos? 
Fofão - Putz, nem sei por onde começar mano...isto tudo é muito deprê... 
Só sei que é muito escroto tudo isso, cresci vendo punk virar “careca do Brasil nacionalista”, skinhead white power, entre outras merdas....virando crente também... 
E isso é uma bosta, mas sei lá, talvez o cara é uma coisa por fora e outra por dentro, as vezes, pode se dizer punk, banger, mas no fundo ser um escroto em casa, um cara que é punk na web mas manda na esposa, espanca os filhos em casa e só esteja finalmente assumindo a bosta de sua identidade escrota, assumindo o que sempre foi na verdade por debaixo da “roupa”. 
Pior ainda quando é “das antigas”, às vezes teve uma banda que até influenciou outras pessoas e agora aparece falando e fazendo merda, como tem acontecido muito ultimamente, como, por exemplo, uma banda da Espanha dos anos 80 que eu gostava muito, a MG 15, que já tocava algo como um proto-D-beat, e um dos caras hoje, acho que o vocal se não me engano, hoje é candidato pelo partido nazista espanhol vox. Porra, é uma desgraça saber disto, ver as fotos do cara com um monte de nazis fazendo saudação, é surreal até. 
E hoje em dia com essa ascensão do fascismo e também da burrice no Brasil, muita gente tem se mostrado como grandes filhas da puta, né, meu. 
E agora falando de Brasil. Às vezes me pergunto; quando tudo isso acabar, quando esse governo de merda sumir, então para onde irão esses racistas, homofóbicos, machistas e todos esses desgraçados que apareceram nos últimos meses??? Eles voltarão a serem “pessoas legais”??? As pessoas vão aceitar novamente esses projetos de fascistas como se nada tivesse acontecido??? 

Pois é, bem complicado. Mas e agora, voltando a falar de coisas boas, positivas, quais os projetos com a Besthöven? 
Fofão - Bom, este ano foi bem produtivo pra mim em vários aspectos. Em Janeiro gravei um EP novo com oito sons novos e exclusivos, e este vinil se chama “Tomorrow´s Hell” e foi lançado na Alemanha, ainda tenho umas três cópias aqui, caso alguém tenha interesse é só dar um toque, beleza? 
Ouça aqui 2 sons do EP Tomorrow´s Hell
Em Fevereiro gravei mais três sons novos e exclusivos também para o split EP com a DHK, que está sendo lançado a qualquer momento na França! 
E há pouco gravei um som para uma coletânea em LP que sairá no Brasil com várias bandas, mas esse projeto eu acho que é segredo ainda, então não vou falar muito sobre, ok? Sorry... 
Além dos livros que eu lancei, desde o início da pandemia, do isolamento, onde aproveitei o tempo em casa para produzir, né, meu... 
Estou terminando o novo álbum da Svartfaglars e ainda aos poucos começando a compor o novo trampo da Besthöven para um full LP que começarei a gravar em breve...
 
Eu espero um dia poder tocar junto com você em algum lugar por aí. Lembro-me que da última vez que fomos tocar com a Cama de Jornal no Distrito Federal, você estava, mas acabou que não rolou da gente trocar uma ideia. O espaço é seu pra falar o que quiser, divulgar seus trabalhos, manda aí! 
Fofão - Pois é! Eu estava lá! Finalmente os vi ao vivo e o show foi ducaralho!! O Grilo mesmo já havia me mostrado o som de vocês também na house dele! Naquela noite eu estava de carona com três malucos totalmente chapados...hahaha...e os caras já queriam zarpar do show direto pra uma festa lá na casa do caralho de longe...hahaha...e eu tive que segurar a onda e colocar os caras pra voltarem pra nossa quebrada, do contrário eu acho que a gente estaria perdido nesse role até hoje ainda...hahaha...por isso tivemos que sair às pressas de lá e nem fui trocar ideia com vocês mano! 
Mas haverá outros rolês por aqui na minha city, o Gama, ou aí!! Claro!!
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