sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Entrevista com o multiartista Diego El Khouri

"No underground eu já fiz muitos amigos"! Esse trecho da música A Horda Punk, gravada no nosso projeto Nem Tosco Todo e as Crianças Sem Futuro, retrata bem a minha história e amizade com Diego El Khouri. Conheci pessoalmente Diego em um rolé em Goiânia com a minha banda Cama de Jornal. E hoje, vamos bater um papo sobre toda a sua trajetória no mundo das artes. Um papo longo, mas muito importante para que possamos entender melhor esse multiartista!

Diego El Khouri

Diego, eu te conheci pessoalmente em um show que minha banda fez em Goiânia. E pra ser sincero, não conhecia você como um multiartista. Só depois que fui descobrindo seus trabalhos como artista plástico, poeta, quadrinista e um dos idealizadores da Editora Merda na Mão. Como que você dá conta de tudo isso?
Diego-Fala Nem, parceiro! Tranquilo?
Eu lembro dessa noite como se fosse hoje, desse evento, desse show. Cara, foi phoda pra caralho ver o Cama de Jornal ao vivo. Foi um evento organizado pela Two Beers Or Not Two Beers Records, do camarada Segundo, e a Editora Merda na Mão montava sua banquinha punk lisérgica lá, distribuindo livros, zines, CDs, etc. Esse primeiro contato foi muito phoda e possibilitou a parceria que viria depois, inclusive na distribuição dos seus livros.
Então, quando você me pergunta como eu consigo transitar por tantas áreas, desde os quadrinhos, as artes visuais, a poesia, o texto crítico-reflexivo, entre outras linguagens, até o trabalho de pesquisa, entrevistando a cena cultural, entre várias outras viagens...acho que isso tem muito a ver com a forma como sempre enxerguei a minha própria existência. Eu sempre acreditei na experimentação como um recurso fundamental do meu processo artístico. Nunca quis estar preso em caixinhas ou limitado a uma coisa só. Eu ia me entediar. Gosto de estar mergulhando em várias coisas, experimentando linguagens, possibilidades e caminhos diferentes.
E, como desde muito cedo eu tinha uma noção muito clara do que era o meu caminho, do que eu queria fazer nessa porra desse mundo fudido, mantive uma puta disciplina. Mesmo nos momentos mais loucos e junkie da minha vida, sempre tive essa disciplina de “todo dia eu vou produzir, nem que seja um risco.”
Foram muitos anos e anos e anos a fio produzindo pra caralho, dormindo pouquíssimo, mantendo uma disciplina muito insana para conseguir fazer um monte de coisa. O mundo dormindo e eu 4 da manhã elétrico fazendo alguma coisa artística, incansavelmente. Quantas vezes dormi no chão de madrugada ao lado do cavalete, sujo de tinta. Porque é isso que me alimenta, é isso que me mantém vivo, saca?
É minha obsessão. Então, minha relação com a arte é uma relação de obsessão...De profunda obsessão.
Diego e Nem em Goiânia
E como você se "descobriu" como um artista? Qual foi a primeira vertente que despertou o tesão pela arte?
Diego-Quando eu falo em obsessão, acho que chego ao cerne da questão, porque minha relação com a arte sempre foi muito intrínseca, desde muito cedo.
Tenho guardados até hoje poemas e desenhos que fiz quando tinha seis anos de idade. Meu primeiro livro, inclusive, foi escrito quando eu tinha oito anos. Era um livro com mais de cem páginas e já trazia questões relacionadas à crítica, corrupção, violência, suicídio, sabe? Já era um trabalho que buscava provocar. Algo muito forte e complexo pra idade. E já misturava essas coisa do texto e desenho.
Então, desde muito cedo, sempre existiu em mim essa estranheza existencial. E transitar entre diferentes linguagens artísticas é coisa pra louco mesmo, sacou?
Minha relação com a arte realmente se manifestou muito cedo na minha vida. Eu já me comunicava através dela antes mesmo de conseguir conversar. Para eu ficar quieto, tinha que me dar um papel para eu rabiscar. Eu mesmo não tenho memória desse período, mas as pessoas mais velhas contam isso.
Então, quando penso em como me “descobri” artista, acho que não houve exatamente um momento de descoberta. A ousadia criativa já estava ali desde o começo, como uma forma natural de me expressar, de compreender o mundo e também de provocar o mundo.
Outsider... desde sempre.

A partir de que momento, depois de experimentar várias vivências artisticas, você percebeu que era um "outsider" fora do padrão?
Diego-Eu descobri que eu era um outsider com oito anos de idade, quando escrevi esse livro que eu mencionei, porque ele me causou problemas muito complicados na minha vida a partir daquele momento. Mas a agressividade em cima de uma criança de oito anos porque está escrevendo um livro, toda essa questão, eu só fui compreender o porquê bem mais velho. Mas, naquele momento, eu percebi que eu tinha que assumir quem eu era e foda-se.
No primeiro momento, procurei até emular ser outra pessoa, mas foi uma tentativa vã, que não deu certo. Impossível pra mim. E depois vieram as referências literárias, artísticas, a poesia maldita, o punk, toda aquela efervescência. E como eu, desde muito cedo, sabia o que eu era, o que eu queria, eu li muito. Li de forma voraz, violenta, obsessiva, tão obsessiva quanto a minha produção artística. No ônibus, nos bares, em casa, em tudo que era lugar.
A leitura, a vivência, a rua, tudo isso foi me trazendo elementos para que eu vomitasse cada vez mais uma arte mais louca, subversiva, insana, pesada, punk e, principalmente, anticonvencional. E é por isso que eu brinco com essa alcunha de outsider da galáxia de parnaso. Eu tô fora do parnaso, tô fora do reino da poesia, tô fora da elite. Meu caminho é a rua, os botecos sujos e a vida vivida na intensidade.
  

Tocando nesse assunto de quebrar padrões de sociedade e de consumo, vamos falar da Editora Merda na Mão, que você criou junto com fabio da Silva Barbosa. Primeiro, de onde tiraram esse nome?
Diego-12 de abril de 2020. Pandemia. Algo novo para a nossa geração. Ascensão do fascismo, extrema direita, movimento anticultura, perseguição aos artistas, repressão policial, violência, caos, fome, miséria, guerras. Nesse contexto turbulento, surgiu a Editora Merda na Mão.
Eu conheci o Fabio através do poeta Glauco Mattoso. Ele me envia livros e zines desde 2009 e em 2010 recebi o zine O Berro, que o Fabio fazia com o Winter Bastos e o finado Alexandre Mendes. Hoje essa publicação continua ativa com o Winter. Aí em dezembro daquele ano eu fui pra Niterói conhecer o Fabio, Winter, Eduardo Marinho, Alexandre Mendes, Wagner Teixeira. Toda essa galera que trampava com zines. Foram dias bem loucos!
Dando um salto para 2020: eu morava em Aparecida de Goiânia na época, hoje estou em Goiânia. O Fabio, que é de Niterói, no Rio de Janeiro, já tinha se mudado há algum tempo para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. E, através da internet, a gente continuou mantendo contato e parcerias pontuais.
Nesse período, nós dois estávamos revoltados e putos com as editoras convencionais, com a forma exploradora e segregacionista com que muitas delas trabalham. É muito caro publicar um livro. E nós, que já trabalhávamos com o underground (eu já tinha entrevistado vários artistas, o Fabio também) conhecíamos muita produção cultural do Brasil inteiro. A gente via de perto uma quantidade enorme de gente produzindo, criando, fazendo trabalhos incríveis, mas sem espaço nenhum. E a gente pensava: porra, com tanta gente produzindo tanta obra phoda, não tem espaço para essa produção circular?! Muitos desses artistas vão morrer no anonimato! Isso não pode! A gente não pode permitir isso!
Como eu e o Fabio somos loucos pra caralho, os dois desempregados, fudidos, vivendo uma pandemia que a nossa geração nunca tinha vivido, sem saber o que seria o dia de amanhã, resolvemos criar uma editora que publicasse os impublicáveis e não cobrasse todo trabalho de diagramação, revisão, divulgação, etc.
Também tivemos como uma das inspirações o trampo editorial do Lawrence Ferlinghetti, poeta, editor e criador da City Lights, editora que impulsionou a literatura beat e publicou nomes como Allen Ginsberg, Jack Kerouac, entre outros. Muitos desses escritores, inclusive, foram perseguidos na época pelo governo conservador e acusados de propagar obras obscenas. Eu sempre curti gente marginal, os vândalos, vagabundos, loucos e todo tipo de desajustado social...Então, inspirado nesse caldo contracultural e também nas nossas vivências de muitos anos no underground, resolvemos criar uma editora diferente de qualquer uma que foi criada até hoje. E já viemos com o nome rápido: Editora Merda na Mão. A gente bolou o conceito, criou a logo e já divulgou para o mundo. Questão de minutos.
Pouco depois, no mesmo dia ou no dia seguinte, já saiu uma matéria em um portal cultural sobre a Editora Merda na Mão. E foi assim que começou: no meio da pandemia, na revolta, na indignação e na vontade de abrir espaço para quem estava sendo deixado de fora pelas estruturas tradicionais. A ideia era, e continua sendo, publicar os impublicáveis.
Mas é importante frisar que a ideia sempre foi publicar os impublicáveis: obras que não encontram espaço no mercado tradicional. Desde o início, a proposta foi não cobrar dos autores pelo trabalho de edição, diagramação, revisão, capa, divulgação, distribuição e todo o processo de publicação. O autor ganharia um exemplar gratuitamente e, caso quisesse mais exemplares, a gente cobraria apenas o valor da gráfica, já que não temos uma impressora própria.
Até o momento, foram publicadas 59 obras, e a gente não pegou nenhum centavo dos autores por todo esse trabalho. A gente esticou essa corda para mostrar que é possível fazer um trampo profícuo de publicação sem explorar os autores. Porque, realmente, o que um autor paga para publicar um livro é muito caro. É exploração demais em cima dos criadores! Isso sempre me revoltou. É uma patifaria do caralho! Existe todo um processo de exploração inserido nessa lógica. Capitalismo selvagem e brutal. O criador é explorado de várias maneiras pela indústria.
E foi justamente para romper com essa lógica predatória e escrota que a gente criou a Editora Merda na Mão. Claro que, com o tempo, a editora virou um monstro com vários tentáculos. Depois vieram programa de rádio (O Aleluia Nunca Mais – A Trilha Sonora do Fim do Mundo na Rádio Rota 220), canal no YouTube com vários programas, sarau de poesia, festival musical, distro, selo musical... Enfim, a besta fugiu do controle. Mas a ideia inicial continua sendo o nosso norte e o nosso principal objetivo: publicar obras impressas.


Muitas pessoas quando dizem que são artistas, músicos, poetas ou escritores, escutam aquele velho questionamento;" Mas você trabalha com o que?" como se ser artista não fosse uma profissão. E reverberando essa provocação, você vive da sua arte ou "precisa trabalhar" para sobreviver?
Eu pergunto isso, por conta que me fazem esse tipo de questionamento de forma constante e muitas vezes eu fico sem saber o que responder, mas sempre jogo de volta a questão: O que é trabalho? É vender seu tempo pelo dinheiro? O que você pensa sobre isso?
Diego-Como a arte entrou na minha vida muito cedo, eu sempre tive uma noção muito clara de que tudo que eu fizesse na minha vida deveria me dar ferramentas para a criação artística. Os trabalhos que exerci, os filmes que vi, os discos que ouvi, os livros que li, as drogas que usei, tudo que eu vivenciei na minha vida fiz de forma consciente com o objetivo de ter cada vez mais ferramentas para o meu processo criativo. Eu sempre procurei absorver experiências, referências e vivências para ampliar cada vez mais essas ferramentas.
Então, houve momentos em que trabalhei com várias coisas e também momentos em que trabalhei exclusivamente como artista de rua, tanto aqui em Goiânia quanto no Rio de Janeiro. Vivi momentos muito caóticos e muito difíceis, mas a arte sempre esteve ali, fazendo parte da minha vida. E eu procurava viver essas experiências de olhos bem abertos, justamente para transformar aquilo em matéria para a minha arte. Com o tempo, fui tentando criar estratégias de sobrevivência. Entrei, inclusive, na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás com esse intuito: me formar e exercer a docência, para ter uma maneira mais digna de sobreviver.
Durante a faculdade, eu acabei me envolvendo profundamente com a própria estrutura da universidade. Revolucionei aquele espaço. Transformei um lugar que era praticamente um hospital branco em um ambiente mais artístico, com grafite, intervenções e outras ações. Sacudi aquele espaço. Meu TCC, “Zine: arte, resistência e ações pedagógicas”, acabou sendo publicado pela Marca de Fantasia, do Henrique Magalhães, que é um importante pesquisador e editor de fanzines e foi pioneiro na pesquisa sobre o tema no Brasil. Aqui nesse link tem como ler na íntegra: marcadefantasia.com/livros/zine_arte_resistencia.pdf.
Esse trabalho acabou tendo uma repercussão muito interessante. Recebi relatos de pessoas que diziam que o livro tinha transformado suas vidas, inclusive de pessoas que estavam na universidade e tinham dificuldade de inserir o zine em seus trabalhos acadêmicos. Então, de certa maneira, aquele TCC também acabou abrindo caminhos para outras pessoas. Aqui nesse link você consegue ler um desses depoimentos: elkhouriartes.blogspot.com
E mesmo me destacando pra caralho na universidade , mesmo assim, não consegui entrar na área de atuação para a qual eu tinha me preparado (mesmo passando em processos seletivos ou entrevistas). Minha trajetória profissional acabou sendo marcada por trabalhos precários: caio de um serviço para outro, sempre tentando encontrar uma forma de sobreviver. Meio Bukowski andando em tapetes de prego.
E existe uma coisa muito perversa nisso: muitas vezes eu jamais digo que sou artista quando estou procurando emprego. Porque muita gente acha bacana quando você diz que é artista — “pô, que legal, você é artista” —, mas eu, que mergulhei profundamente nesse universo, conheço também o preconceito que existe. Em várias situações, quando descobrem que sou artista, eu perco o emprego. Quando aparece uma entrevista na televisão ou alguma outra coisa que me relaciona publicamente com a arte, isso também já teve consequências profissionais. Todas as portas fechadas e assim vou vivendo.
Então, são trabalhos precários, mas que acabam sendo a maneira de continuar vivendo e sobrevivendo. De vez em quando cai no meu colo umas puta encomenda massa. Tenho obras espalhadas em várias partes do mundo. E a minha luta constante é justamente romper esse ciclo de precariedade e tentar construir uma maneira mais digna de viver.
E isso tudo acontece apesar de eu ter um puta currículo. Já expus meus trabalhos no Brasil e fora do Brasil. Tenho obras em acervos em Londres, nos Emirados Árabes, em Portugal... Os livros publicados pela Editora Merda na Mão também já tiveram (e ainda tem) boa circulação na Europa. Já fiz inúmeras exposições coletivas e individuais, saraus, festivais, intervenções e outros trabalhos. Entrevistei mais de 200 artistas. Se você olhar todo o meu currículo, existe uma vivência muito forte dentro da arte ao mesmo tempo que às vezes fica difícil recursos até pro básico. E em outros momentos rola uns trampos massa que me proporciona uma grana pra ir vivendo. Caótico... Caótico... Bagulho doido!
Isso me faz transitar por diferentes meios e classes sociais, tornando minha arte não melhor, mas peculiar.
Então a luta é essa: enfrentar um dragão por dia, saca? Por isso, quando me perguntam se eu vivo da arte, a minha resposta é: eu não sei se vivo da arte. Mas sei que eu vivo em arte. Eu vivo em completa combustão artística. Ardendo em febre criativa 24 horas por dia.
Passei uns 20 anos dormindo, sei lá, três horas por noite, porque queria produzir compulsivamente o meu trabalho. Disciplina brutal. Enquanto o mundo dormia estava eu lá de madrugada pintando, desenhando ... Em média 19 horas de atividade diária.
Então, talvez a questão não seja simplesmente se eu consigo viver da arte. A questão é que, mesmo quando preciso trabalhar em qualquer trampo para sobreviver, eu continuo vivendo em arte. A arte não é uma atividade que eu faço eventualmente. É a forma como eu existo, penso, absorvo o mundo e transformo aquilo em alguma coisa.


Em 2024 você lançou o livro O Filósofo da Maconha. Apesar do título ser bem sugestivo, poderia falar, para os (poucos) leitores do blog, sobre o que se trata? Foi produzido por você junto com Fabio da Silva Barbosa, né?
Diego-O Filósofo da Maconha foi publicada em abril de 2024, no mês que a Editora Merda na Mão completou quatro anos de existência. Mas, assim que a gente criou a editora, já surgiu a ideia de produzir esse álbum. O Fabio foi escrevendo o roteiro, e o processo acontecia da seguinte maneira: ele escrevia um capítulo e me enviava. No primeiro contato, eu normalmente estava tomando uma cerveja, de uma forma mais descontraída, e lia aquele roteiro. E eu ria pra caralho. Era muito interessante esse primeiro contato porque eu procurava ler como se fosse um leitor entrando em contato com aquela obra pela primeira vez. Eu observava muito as minhas próprias reações, porque elas eram o start inicial do processo. Se determinada situação me provocava uma reação, uma risada, um estranhamento, aquilo também me dava pistas de como eu poderia traduzir aquele roteiro visualmente.
Depois desse primeiro contato, eu lia novamente no dia seguinte, dessa vez de uma maneira mais aprofundada. Aí começava o processo de desenho.
Primeiro veio toda a construção dos personagens. Depois, a cada capítulo, eu ia trabalhando dessa maneira: recebia o roteiro, fazia a primeira leitura mais descontraída, depois uma leitura mais aprofundada e, então, partia para o desenho. Eu começava fazendo estudos em uma folha à parte, definindo questões de ângulo, movimento, composição e ritmo da página. Depois passava para uma folha A3, sempre trabalhando em um formato maior justamente para conseguir explorar melhor os detalhes. Aí vinha o desenho propriamente dito e, depois, a arte-final.
Diferentemente de outros trabalhos meus, no qual eu utilizo diversos materiais na composição (canetas, tinta acrílica, etc.) O Filósofo da Maconha, principalmente nessa primeira edição, pedia um traço mais bruto, mais feito à caneta, quase como se estivesse rasgando o papel. A intenção era emular uma urgência punk e fazer esse desenho conversar diretamente com a linguagem do roteiro: sujo e brutal.
Eu, inclusive, considero o Fabio um dos grandes escritores da nossa geração, e acho que essa combinação entre o texto dele e o meu desenho criou uma linguagem muito própria para o álbum.
O Filósofo da Maconha é o primeiro álbum de uma série que, ao todo, terá quatro álbuns. Nesse primeiro volume, os personagens são apresentados. É um quadrinho que possui tiras internas, que podem ser lidas de forma mais independente, mas, ao mesmo tempo, todo o álbum possui uma linha condutora, uma narrativa maior, uma saga. As pequenas tiras fazem parte dessa narrativa e, ao mesmo tempo, podem ser lidas separadamente. É um álbum de 126 páginas, portanto, um trabalho de fôlego.
E a gente teve a puta honra de contar com o multiartista Ciberpajé escrevendo o prefácio, algo que nos honra muito. Ele inclusive publicou na Merda na Mão o seu álbum Renovaceno.
E, como acontece com as publicações da Editora Merda na Mão, existe também uma preocupação muito grande com o objeto gráfico. É um álbum mesmo: capa laminada, lombada e um acabamento gráfico caprichado, que não deve nada a grande indústria.
Estamos com os últimos exemplares. E tem um detalhe que acho muito interessante: quem adquire o álbum recebe, na primeira página, uma caricatura, além de uma puta dedicatória. Ou seja, o quadrinho deixa de ser apenas um quadrinho e passa a ser uma obra única.
Quem tiver interesse em adquirir esse trabalho pode entrar em contato com a Editora Merda na Mão pelas nossas redes antissociais ou pelo e-mail editoramerdanamao@yahoo.com.
Vale a pena conferir. Garanto que você nunca leu nada igual.
O Filósofo da Maconha-Lançamento Editora Merda na Mão

Quanto tempo você levou para produzir os desenhos?
Diego-Mais ou menos três anos. Mas é importante dizer que, nesses três anos, eu não fiquei concentrado apenas na produção dos desenhos de O Filósofo da Maconha. Foi um período de produção muito intensa e simultânea. Nesse mesmo período, comecei a trabalhar tanto o roteiro quanto os desenhos de XXI — A Ópera da Desgraça. Diferentemente de O Filósofo da Maconha, que tem roteiro do Fabio, em XXI o roteiro e os desenhos são de minha autoria. É também um quadrinho de fôlego, com 204 páginas, publicado nesse ano de 2026, no dia 21 de março, justamente no dia em que completei 40 anos de idade. Quem quiser adquirir é só acessar esse link: https://loja.uiclap.com/titulo/ua160029/ . O quadrinho chega numa boa, direto na sua casa. Então eu estava produzindo esses álbuns simultaneamente.
E, além dos quadrinhos, também estava produzindo outras obras no campo da pintura, como a série Século Sinistro. Com a produção cultural da Lívia Batista, minha companheira, também fiz durante esse período, cerca de um ano, uma pesquisa sobre a cena do hip hop em Goiás para produzir as 12 telas da série Ruas e Cores — Hip Hop em Tela. Viajei por vários lugares do estado buscando batalhas de rap, de break, grafites e todos esses elementos que compõem a cultura hip hop. Dessa pesquisa nasceram 12 obras.
 Exposição Século Sinistro no Museu das Bandeiras

Essa série foi exposta no Museu das Bandeiras, na Cidade de Goiás, um espaço com uma história muito forte e pesada. Lugar esse que funcionou como prisão durante um período marcado pela escravização e pela violência contra a população negra. E o hip hop, com toda a sua força de ancestralidade negra, resistência e insurgência, dialogava muito com aquele espaço. Inclusive trago até questões sobre a Palestina, que pra mim, deve ser o norte de toda resistência. Palestina Livre sempre! É sempre importante repetir isso. A exposição, que inicialmente seria de apenas um mês, acabou permanecendo praticamente um ano, cerca de dez meses, devido o sucesso.
Além disso, eu também estava produzindo, aos poucos, um livro em prosa chamado Outsider da galáxia de parnaso (ainda em andamento), fazendo capas para discos e livros da Editora Merda na Mão e parceiros, participando de todo o processo editorial e tocando vários outros projetos.
Também tem o projeto de noise performático e poético War Brain, que faço com o Fabio. A gente inclusive lançou um EP no YouTube (Veja clicando na janela abaixo) com a participação do Danihell Slaughter, da Murder Records, da Holanda, em duas faixas.


Ah, já ia me esquecendo... Ainda tem outro quadrinho que produzi na mesma época que fazia O Filósofo. Um deles é Frida Carla — a Advogada Mais Ousada do Brasil, com roteiro do Fabio e desenho meu, que estamos trabalhando para publicar no começo de 2027. Esse vai ter aproximadamente 50 páginas.
Então, foram três anos de muita dedicação. Eu estava produzindo milhares de coisas ao mesmo tempo. E isso explica também essa obsessão de dormir pouco, de trabalhar exaustivamente, de estar completamente entregue à produção artística. Ou seja, resumindo tudo isso: a gente é louco pra caralho. Incansáveis.

Uma coisa que eu acho massa é que você além de fazer uma dedicatória no exemplar, ainda faz um desenho retratando a pessoa que comprou o livro. Isso deve dá um trabalho danado, né?
Diego-Essa ideia de fazer a caricatura na primeira página começou logo no lançamento de O Filósofo da Maconha, que aconteceu na Mandrake Comic Shop em Goiânia. Nesse lançamento, a gente contou com a participação musical do artista Ningu3m, que depois viria, inclusive, a lançar um quadrinho pela Editora Merda na Mão, chamado Religare. Nesse dia, todas as pessoas que adquiriram o quadrinho receberam uma caricatura minha na primeira página. Isso foi muito inspirado no camarada Ciberpajé, que, nos seus lançamentos, costuma fazer um desenho na primeira página. Não é exatamente uma caricatura, mas ele sempre desenha e faz uma dedicatória. Inspirado nele, comecei a fazer isso nesse dia e postei na internet. Algumas pessoas que tinham recebido o quadrinho pelo correio viram a filmagem e até reclamaram: “Eu não recebi minha caricatura!”. Foi aí que percebi que havia um apelo muito grande nessa coisa mais pessoal, de o leitor receber um exemplar único, feito especialmente para ele.
Então comecei a fazer a caricatura em todos os exemplares que passei a vender do quadrinho. E sempre procuro escrever alguma coisa que tenha relação com a pessoa. Teve, inclusive, gente que adquiriu o quadrinho e pediu para eu fazer o desenho do casal. Então foram várias caricaturas. A caricatura é algo muito forte na minha vida. Durante uma época, inclusive, foi minha principal fonte de renda, principalmente quando morei no Rio de Janeiro. Eu fazia muita caricatura na Quinta da Boa Vista, no Parque Madureira e em outros lugares. Isso me possibilitou desenvolver uma maneira muito rápida de desenhar. Faço uma caricatura em 5 minutos. Foi uma grande escola para mim.


E quantos exemplares já vendeu?
Diego-Porra, a gente é uma editora independente. Não vendemos em grandes quantidades. Mas mesmo assim, O Filósofo da Maconha, por exemplo, rodou bastante por Portugal, e muita gente phoda da arte adquiriu esse trabalho, como bandas como Black Pantera, O Jarbas Mariz que toca com Tom Zé, entre outros. A gente está finalizando as vendas da segunda tiragem, e é importante a galera adquirir esse trampo o quanto antes porque, nessa segunda tiragem, estarão os últimos exemplares que eu vou fazer com caricatura.
Depois disso, a gente vai trabalhar com a gráfica sob demanda, e a própria gráfica envia diretamente o quadrinho para a pessoa que comprar pelo link, igual já fazemos com a HQ XXI. O Filósofo da Maconha também vai passar a ser vendido dessa maneira assim que esses exemplares acabarem.
Então, quem quiser realmente um quadrinho com a caricatura tem que correr logo, porque esses exemplares vão se tornar clássicos. Depois não adianta chorar!

Recentemente você lançou também XXI — A Ópera da Desgraça. Fale um pouco desse novo livro.
Diego-HQ XXI — A Ópera da Desgraça, com roteiro e desenhos de minha autoria, começou a ser produzida mais ou menos no início de 2020, pouco antes da criação da Editora Merda na Mão. Na verdade, ela é resultado de uma pesquisa que eu já vinha desenvolvendo em uma série de pinturas intitulada Século Sinistro. Nesse link dá pra ver essas obras: Youtube.com/watchC2.
Foram 37 pinturas produzidas entre o final de 2019 e parte de 2020. A maior parte era em óleo sobre tela, mas também havia trabalhos em que eu misturava pintura, colagem e outros elementos. O tema dessas pinturas já dialogava diretamente com aquilo que depois apareceria na HQ: a violência, a repressão, o fascismo, homofobia, misoginia, as mazelas sociais e políticas e toda essa atmosfera sinistra do nosso tempo.
Existe, porém, uma diferença importante na questão cromática. Século Sinistro é uma série muito marcada pelo vermelho, pelo sangue, por uma presença cromática mais intensa. Já na XXI, eu parto para uma linguagem preta e branca, valorizando o “não branco do papel”. Então, apesar de existir uma continuidade temática muito forte entre os dois trabalhos, existe também uma mudança significativa na maneira como essa violência e essa atmosfera são visualmente construídas.
Nessa série em pintura, pelo menos em algumas obras, eu fazia releituras de algumas fotografias do período da ditadura militar brasileira, ressignificando aquelas imagens e colocando o preto, o periférico, no centro da questão, coisa que pouco se mostra na historiografia desse tempo...Acho que essa inclusão deixa mais clara a genealogia da HQ: Século Sinistro não é apenas uma referência temática posterior, mas uma espécie de campo de pesquisa visual que desemboca na XXI. E a diferença cromática dá uma informação importante sobre a linguagem das duas obras.
O Fabio foi certeiro no prefácio:
"Um registro destes tempos sombrios, sórdidos e bizarros.
Mais que uma fotografia, uma verdadeira exposição do terror cotidiano. Imagens e mais imagens formando um labirinto da desgraça. O mal-estar psíquico, a opressão, o racismo, a podre política partidária, a depressão cada vez mais presente na vida dos que não podem mais suportar uma sociedade vil, perversa, que extermina de forma sistemática os mais vulneráveis ou os que não se encaixam. Uma estrutura que persegue, tortura e mata para manter o maldito status quo de pé, como um ícone da hipocrisia. Uma estrutura podre e corrupta que posa de sustentáculo da moral e bons costumes. É vomitando esta calamidade existencial, em todos os seus campos, que Diego El Khouri trás à tona a HQ XXI. A decadência existencial, política e social fecundando o filho do inferno. Um ser grotesco com sua baba venenosa levando os moribundos até a morte, a loucura ou a depravação dos sentidos. Um ato de insanidade e vertigem que leva o ser ao não ser a extinção de qualquer forma de questionamento, pensamento ou reflexão mais profunda. Retrocesso total em todos os campos, inclusive o retrocesso intelectual. Mas a resistência existe e é real. A HQ XXI está aí para provar isso. Um vômito ácido e corrosivo. Uma reação violenta e aguda nestes tempos estéreis e limpinhos. Onde as pessoas colocam o pescoço na guilhotina de forma pacífica, achando que estão fazendo grandes coisas.
Um grande foda-se para todos vocês
e que morram entalados com as páginas que estão por vir."

XXI — A Ópera da Desgraça de Diego El Khouri

E esse ano também a Editora Merda na Mão lançou a chamada para uma Antologia poética escrita por mulheres Subversivas. Como anda a receptividade e qual a importância de dá voz as mulheres?
Diego-Esse trampo foi um dos mais desafiadores e, ao mesmo tempo, mais satisfatórios dessa jornada de seis anos da Editora Merda na Mão. Subversivas — Antologia Poética Escrita por Mulheres é uma iniciativa do blog cultural Molho Livre (https://molholivre.blogspot.com/), uma página que foi criada por mim em outubro de 2010 em parceria com a Editora Merda na Mão e a Mova-se Projetos Culturais.
A gente lançou o edital inicialmente no blog Molho Livre no dia 3 de agosto de 2026 e encerrou no dia 6 de setembro de 2026. Cada autora poderia enviar cinco poemas, além de uma minibiografia. E, para nossa surpresa, a chamada teve um impacto muito maior do que a gente imaginava. Também divulgamos no instagram da Editora Merda na Mão, e a publicação teve mais de 12 mil visualizações e mais de 300 compartilhamentos. Foi algo muito intenso. Ainda mais pra uma editora tão indigesta. A gente conseguiu atingir o público feminino de uma maneira muito forte, e isso também trouxe novas parcerias e novas leitoras.
Foi realmente algo que furou bolhas. Uma editora independente conseguir mais de 12 mil visualizações em uma chamada e, além disso, perceber que tudo que a gente publicava sobre a antologia estava atraindo muito o público foi algo que nos impressionou bastante. Recebemos muitos poemas e, neste momento, estamos justamente na fase curatorial. E tem uma coisa muito interessante: essa antologia acabou reunindo autoras de diferentes lugares e gerações. Recebemos poemas de mulheres de Portugal, Argentina e Angola, além de autoras de diferentes regiões do Brasil. As idades também são muito variadas: temos desde mulheres de 16 anos até mulheres de 70 anos. Só no blog Molho Livre, durante os 30 dias em que ficamos recebendo esse material, tivemos mais de 60 mil acessos.
E, mais do que os números, fica a dimensão humana dessa mobilização: mulheres escrevendo, compartilhando seus trabalhos e ocupando um espaço de publicação independente. A capa e a diagramação do livro será feira pela Lívia Batista e a proposta é que a feitura seja totalmente manual, justamente para fugir dessa coisa engessada da inteligência artificial e manter o caráter artesanal da obra. E tem uma coisa que considero fundamental na nossa proposta. Quando a gente publica um livro pela Editora Merda na Mão, não queremos dizer que estamos “dando voz” à arte marginalizada, à arte periférica ou às mulheres. A voz já está aí. O que falta, muitas vezes, é espaço para que ela circule.
A gente quer ser essa ponte. Uma ponte propulsora para espalhar essas obras de forma intensa, fazendo com que elas cheguem ao maior número possível de pessoas e que esses talentos não morram no anonimato. Essa é a nossa missão. Essa é a nossa luta diária.
E a gente está muito ansioso porque tem certeza de que Subversivas vai ser uma obra muito forte, um verdadeiro painel da poesia contemporânea escrita por mulheres. Então, fiquem ligados no blog da Editora Merda na Mão (https://editoramerdanamao.blogspot.com/), nas nossas redes antissociais e nos canais do Molho Livre, porque vamos continuar divulgando todo o processo dessa antologia. Como falei, ainda estamos na fase curatorial, justamente porque chegou muito mais material do que a gente imaginava. Eu particularmente achava, inclusive, que teria que correr atrás das autoras para conseguir formar a antologia. Não imaginávamos o alcance que a chamada teria. E o resultado acabou mostrando que existe uma produção enorme de mulheres escrevendo e buscando espaços para publicar.

E além disso tudo, quais outros projetos você anda envolvido?
Diego-Eu falei um pouco sobre eles ao longo da entrevista, mas vou elencar aqui os trampos que ainda estão em processo de produção:
• Frida Carla – A Advogada mais ousada do Brasil (história em quadrinhos com roteiro do Fabio da Silva Barbosa e desenhos de Diego El Khouri);
• Carniça – A apologia da destruição – Substâncias ilícitas, crimes e outras especiarias (história em quadrinhos com roteiro do Fabio da Silva Barbosa e desenhos de Diego El Khouri);
• Ruas e Cores: Hip-Hop em tela (pinturas de Diego El Khouri e produção cultural de Lívia Batista);
• Urbanidade e Memória – Arte negra e descolonização do olhar em Aparecida de Goiânia (pinturas de Diego El Khouri e produção cultural de Lívia Batista);
• O artista em decadência (Graphic Novel com roteiro e desenhos de Diego El Khouri);
• Outsider da galáxia de parnaso (prosa poética de Diego El Khouri);
• A vida do homem medíocre (Graphic Novel do Edson Baptista);
• Subversivas – Antologia Poética escrita por mulheres;
• Relançamento do livro Biqueira de Rafael Vaz acrescentado de poemas inéditos;
• Era uma vez... na prisão (livro escrito por Pedro Lalo);
• Zine Reboco Caído – 16 anos de guerrilha cultural (documentário)
Oficina de Zines por Diego

Pô, agradeço a sua atenção e parceria! Obrigado mesmo e o espaço é todo seu pra falar sobre algo que não foi contemplado nas perguntas e você ache importante. Ou simplesmente falar o que você quiser!
Diego-Cara, eu queria agradecer demais o espaço, saca? Eu valorizo isso muito, porque sei o quanto é difícil um trabalho como o nosso conseguir eco e espaço por aí. É realmente um trabalho de combatividade, corajoso e sem concessões.
Então, agradeço pra caralho a oportunidade de a gente estar aqui divulgando nossas ideias, nossos projetos e tudo aquilo que estamos construindo.
E o que eu posso deixar aqui no final é que a gente vai continuar publicando os impublicáveis e inflamando a insurgência do gueto, sempre.
E deixo aqui também as nossas redes antissociais para os malucos, malucas e maluques viajarem nas nossas imersões artísticas e viscerais.

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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Entrevista com Marivan Ugoski da Rock Soldiers

Hoje tive um papo com Marivan Ugoski, idealizador da série clássica de coletâneas Rock Soldiers. Seu envolvimento com o rock começou como o de muitos jovens; através de um parente próximo! Se ligue na entrevista e conheça um pouco mais sobre a história desse cara guerreiro do underground!

Marivan Ugoski

Marivan, vamos iniciar falando como começou a sua vivência com o rock?
Marivan-Primeiramente, obrigado pelo reconhecimento ao meu trabalho tanto como músico quanto produtor. Tudo começou em eu mesmo buscando por um som, um estilo diferente do que eu tinha acesso no início dos anos 80. Eram só as músicas do meu pai e o que tocava na rádio AM na época.
Até que um dia fui viajar para a cidade de Canoas (RS) com meus pais e encontrei um primo que era mais velho do que eu, o qual eu expliquei pra ele que procurava algo diferente em termos de música que não fosse o que tava na mídia.
E aí veio o pulo do gato!kkkk...esse meu primo me apresentou uma fita K7 que tinha AC/DC, Judas Priest, KISS, Black Sabbath, entre outras e aí foi a porta de entrada. Fiquei louco, comecei anotar os nomes das bandas pra começar a comprar os LPs e aí só fui ampliando os meus conhecimentos.

Você nasceu em Pelotas e depois mudou de cidade. Como foi isso? Essa mudança influenciou de algum modo a sua forma de ver o rock?
Marivan-Pior que não. Eu vivi 40 anos em Pelotas, uma cidade que por alguns anos foi considerada a segunda maior do Rio Grande do Sul, só perdia pra capital. Eu mudei por motivos pessoais e profissionais. O rock só crescia. Tive muito acesso ao rock/metal em Pelotas que inclusive na época tinha uma cena forte com muitas bandas surgindo no final dos anos 80. Minha visão em relação ao rock só crescia!

Sua primeira banda foi a Débil Metal, né, em que ano foi isso? Qual era o estilo e chegaram a gravar algum material?
Marivan-Eu entrei nessa banda em 1986 apenas como vocalista e a banda era praticamente de cover, foi a minha primeira banda, só tinha uma única música própria e era numa pegada Heavy-Metal.

Em 1987 você já estava com outra banda, chamada Atro (que depois mudou a grafia para Attro), e lançou a primeira demo-tape em K7. Essa banda você ficou um tempo maior, né? Qual era o estilo e quantos materiais foram lançados?
Marivan-A Débil-Metal terminou no final de 86. E exatamente em 21/02/1987 eu estava realizando o primeiro ensaio da ATRO, essa sim, minha banda e além de vocalista eu já estava como baixista, inclusive o guitarrista que não entrou na Débil-Metal foi tocar comigo.
Lançamos a demo em K7 "DEATH FOR THOSE WHO", participamos de algumas coletâneas na época, inclusive uma em LP. Depois vencemos o concurso da STANER 21 ANOS em primeiro lugar que resultou no CD "BREAKER" (1995) e depois lançamos o álbum "MAKING UP FOR THE WASTED TIME" de 2003 que, na minha opinião, foi o melhor trabalho da ATTRO. A banda ficou na ativa até 2011 e o estilo predominante da ATTRO foi numa linha heavy/thrash com exceção da época do BREAKER de 94 a 96 que saiu numa linha mais Hard/Heavy, que eu saí dos vocais e fiquei apenas como baixista. Tinha um vocalista e a banda estava em um quarteto. Foram 24 anos de ATTRO! Essa grafia foi adotada em 2003, pura numerologia!

Pois é, mas antes disso vocês já tinham participado de algumas coletâneas. Foi aí que deu o "estalo" pra criar sua propria coletânea?
Marivan-Com certeza foi, e além de músico agora sou produtor executivo.

Marivan Ugoski é Produtor Executivo da Coletânea Rock Soldiers

Quando foi criada a UGK Disccos? E aproveitando pra falar em números, você sabe quantos CDs já foram distribuídos e quantas bandas já participaram da coletânea Rock Soldiers?
Marivan-Criei a UGK Disccos em 1997 e os números são em torno de umas 700 bandas participantes. Até o presente momento, foram 36 volumes lançados, sendo 02 DUPLOS, quase 40.000 CDs prensados!

Acredito que já tenham participado bandas de todos os estados brasileiros da Rock Soldiers. Mas também já teve até banda estrangeira. Aí o alcance aumenta, né?
Marivan-Isso. Não existe nenhum Estado do nosso Brasil que não tenha uma banda na ROCK SOLDIERS e mais as bandas gringas da Alemanha, Japão, EUA, Portugal, Costa Rica, Peru, Chile, Argentina, Inglaterra e etc. Com certeza, o objetivo é romper fronteiras !


Falando novamente nas bandas nacionais, eu me lembro que a primeira coletânea Rock Soldiers que chegou nas minhas mãos, era o volume 3, tinha uma banda da Bahia, e foi isso que me chamou a atenção, fazendo com que eu escutasse o CD com mais cuidado, vendo de onde as outras bandas eram. Aí a gente tá falando de anos 90/2000, época de pré internet, do tempo de cartas enviadas pelo correio. Como você vê a cena daquela época em relação a de hoje, dos tempos de música digital?
Marivan-Vejo como uma faca de dois gumes, pois até o volume 04 eu fazia os contatos e acertos tudo pelos correios e cartas, mas a mídia física estava em alta e super valorizada. Depois veio a internet que facilitou demais nos contatos com as bandas, no envio do material, porém o CD físico ficou descartável, principalmente pra essa nova geração.


Eu fico imaginando um site ou servidor desses, tipo spotify e tal, se um dia um milionário excêntrico resolver comprar e mandar apagar tudo, dando um grito arrogante tipo "apaga essa porra toda"! Eu me lembro da época do myspace em que um monte de material sumiu depois que acabaram com o site. Muita banda só lançou lá, digitalmente, não fez o CD, vinil nem k7.
Já a mídia física, é bem mais difícil de "desaparecer", vamos dizer assim. O que você pensa sobre isso?
Marivan-Também li à respeito que tem aumentado em até 15% o consumo da mídia física, LP e até a fita K7, isso é ótimo, eu acredito muito no registro físico, esse lance de ficar "solto no ar" kkkkkk...não é comigo.
Eu sei que é importante pra divulgar, mas que não precise abrir mão da mídia digital, tem como levar os dois de boa, porque a hora que cair essa internet ou simplesmente se apagar, milhões de trabalhos serão perdidos.

Então, saiu essa pesquisa dizendo que as vendas de CDs voltaram a subir, até mais do que a de Vinil. Isso foi impulsionado pelos fãs de K-pop. Mas a gente que tá no underground com banda autoral sabe que a galera ainda compra material físico. Você acha que o CD pode voltar como foi aquele "boom" da volta do Vinil?
Marivan-Com certeza, principalmente o público Rock que são consumidores de paixão, colecionadores e que querem ter em mãos além da mídia física, o material gráfico, até porque o rock é um estilo diferenciado e não é música descartável.

E hoje, quais são os seus projetos? Você agora tem um projeto de um homem só. Tá focado nesse projeto? Vem mais coletâneas? O que podemos esperar de Marivan e da UGK Disccos?
Marivan-Podem esperar mais volumes da série ROCK SOLDIERS, inclusive já estou começando a agendar as bandas pra edição 37.
O meu projeto AziAguS do qual lancei o primeiro álbum "O ÚLTIMO PREGO DO CAIXÃO" (2021) e o mais recente "MUITA COISA ACONTECENDO AO MESMO TEMPO" (2026), segue firme e forte e penso futuramente em lançar o terceiro.

Marivan com os dois CDs lançados do seu projeto AziAguS

CD da AziAguS - Clique na imagem para ampliar

Aqui na minha cidade tem muita banda de rock cover de uma garotada nova (tem de uns tiozão também), enfim, qual conselho você daria pra essa galera em relação ao registro autoral?
Marivan-Eu aconselho a usar o cover só se você depende ou ganha com isso ou no máximo incluir alguns deles no meio de seu repertório autoral, porque o mais importante é você criar sua própria arte, sua música, porque fuder com o pau dos outros é complicado!

Marivan, obrigado por disponibilizar seu tempo pra falar com os (poucos) leitores do blog! O espaço é seu pra falar sobre o que quiser!
Marivan-Agradecer de coração por ceder esse espaço, pois divulgação, seja ela qual for, nunca será demais. E sei de músicos que vivem de tocar cover, mas que não abrem mão de criar sua própria arte.
OBRIGADO!LONGA VIDA AO ROCK AND ROLL !

Contatos:

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Rural 64 lança Qual foi, cabeça?

 

Banda Rural 64. Foto por Campos Fotografia

Beirando a meia noite de uma sexta feira ociosa, tô voltando aqui nesse blog tosco, pra bater um papo com Hudson Simões, vocalista da banda Rural 64, que lançou hoje o seu novo trabalho "Qual foi, cabeça?"
Eu tô ligado que o povo tem preguiça de ler, mas a entrevista é nossa e fazemos do jeito que achamos melhor. "Se não se agradou, vai tomar no seu botão" (quem ler até o final, vai entender a citação).
Se liga e dá o play no disco novo dos caras e vida longa ao som autoral de Conquista!

Hoje chegou o dia do lançamento do disco "Qual foi, cabeça?". Como andava a expectativa de vocês?
Hudson - A expectativa foi gigante, todo mundo muito ansioso e querendo que ficassem logo disponíveis as músicas em que tanto trabalhamos para chegar ao resultado que agora todas as "cabeças" podem conferir. 😂😂😂
Nas plataformas tem um horário disponível para a distribuição. E os caras acordaram hoje contando os minutos para ver as músicas distribuídas. 😂😂😂

Segundo álbum da Rural 64

"Qual foi, Cabeça?" foi gravado de forma totalmente caseira?
Hudson - Sim, foi totalmente caseira e com os recursos que estavam ao nosso alcance. O que deixa o desafio ainda maior e divertido também. Tinha dias que estava calor pra caramba e 5 "cabeças" dentro de um quarto tendo que isolar som quando era captação de voz, aí cê já sabe, a resenha é gigante nessas situações.

Os outros dois discos anteriores também foram gravados em homestudio?
Hudson - Na verdade, o disco de agora é o segundo😂😂😂. No primeiro disco que iria ser um EP, o "Vamo de Rural", conseguimos juntar uma parte do dinheiro com alguns eventos da época e tivemos a ajuda e apoio que temos desde o início da banda que é Zilda (Bilu) e Paulo, eles nos ajudaram com a outra parte, além da correria de deslocamento e todas situações possíveis.
Aí gravamos lá em Deyvison, ele deu uma grande força pra gente também, fazendo um preço bacana, além de nos trazer muitos conhecimentos e nos entender naquele momento tendo em vista que a gente era tudo moleque ainda com pouquíssima experiência.

Hudson Simões. Foto: Emanuel de Matos

Deyvison é o guitarrista da antiga banda Tryumphall?
Hudson - Isso, ele mesmo.

Ah, massa! Já gravei umas vozes de um disco do meu projeto lá com ele. Gente boa demais! Voltando aqui. Vocês fizeram alguns shows esse ano, né? Tocaram as músicas desse novo trabalho ao vivo? Como tem sido a receptividade da galera para as músicas da banda?
Hudson - Massa demais, muito gente boa ele. Isso mesmo, no Festival Conquista Punk Rock, tocamos uma boa parte das novas músicas, o público foi muito receptivo, ficamos surpresos em ver algumas músicas já tendo os refrões sendo cantados. Tivemos também alguns feedbacks, teve gente perguntando quando iria sair às músicas, dizendo que curtiu e queria escutar. Acredito que isso também influencia muito na ansiedade do lançamento, ficamos na expectativa de entregar pra essas pessoas que escutaram ao vivo e cobraram gravação. 😂😂😂
Tocamos o disco quase completo no projeto "Fome de Autoral", lá no Fome Stop. A galera que estava presente foi bastante receptiva também. Muitos vieram falar depois da Coragem de tocar um repertório 100% autoral.
Banda Rural 64 no Festival Conquista Punk Rock. Foto: Marlon

Eu estava nos dois shows e posso afirmar que a energia da banda ao vivo é muito foda!  E acho também que é natural essa expectativa do público que viu ao vivo, querer escutar o disco, né?
Hudson - É uma satisfação imensa saber disso, Nem, tendo em vista que você é uma referência muito importante pra gente. E ter essa visão vinda de você só deixa a gente mais felizes e motivados. É isso, acredito que ao mesmo tempo que a gente tá ali tendo essa recepção e expectativa, nós tentamos nos colocar também no lugar do público e entender tudo o que está acontecendo. Posso dizer que ficamos bastante empolgados junto com a galera.

Eu tô escutando o disco aqui agora, e logo pra começar tem a faixa "Bota pra quebrar", que como o nome sugere, é uma faixa pra cima! Mas aí veio a faixa "Esquenta o coração" que começa com uma bateria com uma batida de galope e depois vira um hc melódico. Depois tem outra faixa que achei diferente, chamada "Ghost man". De onde vêm essas influências? O que vocês estavam escutando de referência pra gravar esse álbum?
Hudson - As influências são muitas, o fato de todo mundo escrever as letras na banda, acaba trazendo muito do individual de cada um e aí nos ensaios as músicas acabam passando por uma transformação também. Tudo acontece de forma muito natural e espontânea. "Bota pra quebrar" é de autoria de Cássio Bruno (Baixista), na música ele traz influências dele e também da própria forma de fazer música da Rural, essa coisa mais agitada. "Esquenta o coração" é uma composição de Hugo (baterista), ele disse que tava tocando "Chiclete com Banana" aqueles discos antigos deles que tocavam forró, olha só pra tu vê 😂😂😂, aí ele se inspirou percebendo a sua memória afetiva de infância em contato com o São João do interior e também percebendo a bateria que lembrava o ritmo do HC imaginando ela mais acelerada. "Ghost man", é uma regravação do projeto solo de Hugo (baterista), ele tem muita influência do rap e da psicodelia no projeto solo dele, aí achamos interessante e resolvemos testar no ensaio em uma pegada "Rural", nessa faixa ele faz o vocal das estrofes. Aí é basicamente isso que rola no processo de criação.

Cássio, Hugo, Allan e Pablo completam a Rural 64. Fotos: Emanuel de Matos

Ah, legal. E o disco tem participações especiais também, né?
Hudson - Sim, conta com a participação de Decairu (Rodrigo). Ele participou de duas faixas, "Gestão árdua" e "Quebramola". De início fizemos o convite pra participar somente de "Gestão árdua", aí durante a gravação em uma conversa, falamos que iria ser muito interessante ter o vocal dele em "Quebramola", mostramos para ele na hora e aí ele aceitou.

Rodrigo é um cara muito foda! Pra quem não sabe, ele era vocalista da banda Dona Iracema e hoje tem uma nova banda chamada Preá.
Pra fechar, Hudson, me fala de onde veio a ideia da ultima faixa "Vai tomar no seu botão"? Rapaz, "Não tenho paciência/Não quero discussão/Aqui ninguém se abala/Com a sua opinião".
Eu achei isso sensacional! De quem é a letra?
Hudson - Rodrigo é muito foda mesmo!
Essa faixa veio de uma resenha no ensaio da Rural, a gente costuma desabafar sobre várias coisas da vida, aí eu e Cássio (Baixista), começamos a falar algo do tipo "não vamos nos abalar com isso", "se não agradar, vai tomar no c#". Primeiramente falamos de forma mais expressiva😂😂😂, depois começamos a cantarolar isso como refrão. Aí eu fui pra casa e escrevi a estrofe, levei pra um dia de gravação e mostrei, aí ele pegou o violão e começou a botar os acordes. Daí pra frente, virou um hino nos ensaios 😂😂😂

Muito foda! Hudson, brigado por acreditar na música autoral de Conquista! O espaço é seu pra falar o que quiser ou sobre algo que esse tosco que vos escreve deixou passar!
Hudson - Antes de tudo, eu agradeço demais em nome da Rural, por tudo o que você tem feito pela cena de Conquista, isso é um dos principais motivos de nos fazer acreditar no som autoral. Agradeço pelo espaço e apoio de sempre. Autoral é memória e isso é algo que fica, independente da quantidade de gente que alcança. O retorno é a felicidade de fazer acontecer.


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